O uso do conceito de tradição é recorrentemente utilizado como sendo argumento que valide determinadas práticas.
E estas práticas mantêm-se sob o lema de que a sequência de determinados atos, independentemente do seu carácter, validem a sua manutenção.
O que nos faz refletir que o ser bom, certo, adequado, existe sob a lógica de que nada há a mudar, rejeitar ou repudiar porque é um atentado contra a tradição.
Tradição deriva do latim traditio, que tem o significado de “entrega” ou “passagem de testemunho”, integrando a transmissão social, produzida dentro de um mesmo tempo ou passada de geração em geração, de determinados costumes, comportamentos, hábitos, memórias, crenças ou lendas.
Sendo verdade que as tradições contribuem para a identidade de uma comunidade, também é verdade que, estas mesmas tradições, podem representar um entrave ao progresso, funcionando como mecanismos que impeçam a inovação, para multiplicar relações sociais ou equilíbrio culturais que de facto se situam já fora do tempo, e para dar a ideia que estas são, afinal, ao mesmo tempo naturais e legítimas.
E ao lado da nossa vida passam despercebidos, muitas vezes, eventos culturais com uma dimensão enorme, que carregam emoções que parecem suspender o tempo.
Podem ser demoradas ou breves...e escrevo exactamente acerca do Festival de Curtas de Artes Performativas que decorre durante três dias, em Angra do Heroísmo.
Com uma Dinâmica diferente, deixa-nos, até 30 minutos antes do seu início, em total suspense acerca do local onde se realizará e de que forma, que métodos, que instrumentos, serão utilizados para a concretização de tudo o que foi percepcionado.
A possibilidade de conhecermos o trabalho de artistas locais e nacionais, o facto de que um conjunto de pessoas se organizou de forma a nos poder proporcionar momentos de cultura, através de 30 minutos de teatro, dança, música, circo, performance, cruzamentos disciplinares, ao ar livre.
Saí de trás do museu de Angra do Heroísmo – espaço onde aconteceram os 30 minutos mais intensos dos últimos dias – com o coração cheio de esperança em que futuramente se valorize a cultura, no seu verdadeiro todo.
Que se pense a cultura como uma forma de inovação, de crescimento, de alavanca para a nossa sociedade. Que se pense a cultura como educação, prevendo-se o direito constitucional à sua criação e fruição.
O meu profundo agradecimento às pessoas que elevam a cultura ao seu mais alto patamar e que nunca desistem perante as dificuldade que todos os dias encontram.
É com pessoas destas que o mundo avança!