Já o disse e reafirmo: O Catar foi um grave erro. Assim o disse Sepp Blatter, antigo presidente da FIFA, ao falar sobre a escolha daquele país para acolher o mundial de 2022, que começará por estes dias.
Recordemos que Blatter demitiu-se na sequência de uma verdadeira avalanche de acusações relacionadas com subornos, fraudes e lavagem de dinheiro, pelo que o seu compasso moral, alegadamente, deverá estar avariado à partida. E, ainda assim, o que Sepp Blatter afirmou sobre o Catar não deixa de ser verdade. Foi um erro.
É longa a lista de crimes já cometidos em nome do mundial, bem com a lista de ofensas à Humanidade que são diariamente propagadas pelo governo do Catar. Contra a igualdade de género. Estratificando racialmente as suas populações.
Criminalizando a homossexualidade ou a transexualidade. Escravizando trabalhadores que acabaram enterrados nas fundações dos estádios onde as seleções vão jogar.
Ninguém no seu perfeito juízo poderá apoiar o Catar, perante o que se passa. Ninguém, no seu perfeito juízo, poderá apoiar o racismo, a xenofobia ou a homofobia.
Só que talvez tudo isso fosse verdade há alguns anos, mas desde 2015 e, principalmente, desde 2019, a realidade parece ter-se alterado substancialmente.
Em Portugal, é nesse ano que vemos ascender um movimento de índole marcadamente puxada a ódio, que vai culminar na eleição de André Ventura, para a Assembleia da Républica e, mais tarde, José Pacheco, para a Assembleia Legislativa Regional dos Açores.
Para quem dúvidas possa ter acerca de como pensa o deputado José Pacheco, bastará certamente espreitar uma recente enxurrada de frases de cariz marcadamente homofóbico que trouxe a palco nas suas redes sociais, para criticar uma afirmação do diretor do Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas.
João Mourão, numa entrevista ao Açoriano Oriental, destacou, entre outras questões pertinentes, o facto de procurar gerir a instituição que dirige de forma que a mesma possa ser um porto de abrigo para a comunidade LGBTQI+.
A resposta cheia de ódio chegou rapidamente. O deputado Pacheco, no mesmo dia, veio a público levantar argumentos contra o diretor do Arquipélago, procurando utilizar uma retórica digna do “quem diz é que é”, para virar a conversa a favor da sua maneira muito própria de expelir desigualdade.
Saberá José Pacheco o peso da discriminação que sofrem açorianas e açorianos membros da comunidade LGBTQI+? Pensou alguma vez na quantidade de pessoas que já foram vítimas de descriminações ou mesmo abusos, físicos e/ou psicológicos, apenas por desejarem ser quem são? Quantos artistas nunca o chegam a ser, por serem afastados das oportunidades, apenas pelo que são?
José Pacheco concentrou-se antes numa vã tentativa de replicar os argumentos trumpistas, sobre discriminação positiva e a grande substituição, imitando de forma fraca os já de si fracos cabeças falantes da Fox News e dos aliados do seu líder partidário. Não será difícil encontrar discursos semelhantes da parte de Ventura. Pacheco terminou, exigindo a demissão imediata de João Mourão e afirmando que se tal não acontecesse, seria ele mesmo a tratar do assunto.
Ascendemos, portanto, a um patamar semelhante ao do Catar, no que concerne à força política representada por este deputado. Não só procura ostracizar aqueles que sofrem a discriminação na pele, como ainda almeja ordenar o Governo a demitir quem se rebela contra as suas ideologias.
Para José Pacheco, João Mourão não é um português de bem, porque está contra ele, e contra todos os homofóbicos que por aí andam. Para José Pacheco, a solução final é afastar o diretor e relegá-lo à obscuridade que parece atribuir a quem defenda aquela, e outras causas semelhantes.
E chegamos finalmente a mais um momento crucial na curta, mas perigosa história do atual arco de governação dos Açores. Será José Manuel Bolieiro capaz de se afastar publicamente destas afirmações? Poderá Artur Lima repudiar o discurso de ódio de José Pacheco? Como poderá Paulo Estêvão colaborar com um partido como este? Sentirá Sofia Ribeiro ou Brito Ventura o peso da influência do deputado, numa futura discussão sobre a continuidade de João Mourão?
A resposta é mais ou menos clara. Tal como a FIFA foi capaz de aceitar o imundo dinheiro do Catar, porque dele precisou, também o executivo PSD-CDS-PPM precisa de José Pacheco, e, portanto, estará capacitado para tudo engolir. Neste caso não se trata de dinheiro, mas de sede de poder.
Só que não pode valer tudo.
Solidariedade com João Mourão e com o Arquipélago, que merece continuar o seu projeto, sem olhos tirânicos a controlar os seus caminhos.