Bem sei que na semana passada já usei este título, por isso acrescentei a interjeição, mas ela importa: vinca a indignação que sinto ao ver este curso de coisas. Se na semana passada discorri sobre a infantilização dos jovens (e podia fazê-lo, também, das pessoas em geral), a desresponsabilização parental, hoje escrevo sobre a instrumentalização das crianças.
A minha motivação vem de um episódio muito concreto: logo ao início do debate entre os cabeças-de-lista açorianos, na primeiríssima intervenção de todas, que coube ao candidato do CHEGA, Miguel Arruda, temos as palavras «Antes de mais queria fazer aqui uma pergunta ali ao senhor Francisco César, para começar, o seu filho já está inscrito na JS?» [1].
Se estas declarações não merecem a nossa indignação, então temos mais um sintoma do desmoronar da nossa democracia nos seus 50 anos. Julgo haver aqui duas dimensões necessárias de abordar: a instrumentalização das crianças, mas também o próprio debate.
Francisco César tem 45 anos, pelo que me parece ilógico achar que qualquer filho seu estaria em idade de ocupar um cargo público. Assim sendo, a afirmação só tem o propósito do ataque pessoal, é mera retórica (e de tabernerio – com todo o respeito pelos próprios taberneiros). Na resposta do deputado «socialista» temos a confirmação do filho ter meramente 11 anos. Miguel Arruda achou por bem abrir um debate a falar de uma criança de 11 anos que provavelmente nem tem bem consciência do que está a ser acusada. Trespassou-se a vida privada e trouxe-se ao debate uma pessoa que não tem nada a haver com política. Mas isto cabe na cabeça de alguém?
Em que mundo é que se faz política a sério com ad hominem e instrumentalização de inocentes? Tanto mais séria é a questão quando percebemos que se está a pôr em perigo vidas de pessoas que nada têm a ver com o assunto (nem os próprios políticos deviam ser o assunto, mas as suas propostas e visões). E este discurso está a ser normalizado! O próprio moderador nem reagiu com qualquer repreensão, simplesmente mudou de assunto. Já há umas semanas tinha acontecido algo muito semelhante com Rui Tavares [2]. O CHEGA está a fazer um trabalho de fundo de tentar tornar esta retórica aceitável (tal como muitas outras), principalmente através das redes sociais. Não é aceitável publicarem-se fotos de crianças (terceiros) como forma de fazer política. Não é aceitável publicar-se fotos de crianças (terceiros) sem consentimento. Não é aceitável.
E enquanto estamos desta disputa pelo bom senso, onde a vida privada e o debate político se imiscuem, esse debate perde-se. E é esta a segunda dimensão: a democracia perdeu a vitalidade, a reflexão informada e estruturada, a oposições de visões construtivas. Como é possível debater com quem quer rebolar na lama e nos atira para ela? Não é por falta de aviso que nos vamos afundar, é mesmo estupidez.
Como nota final, é tragicamente engraçado como tanto as críticas da semana passada sobre as crianças e jovens, tal como esta instrumentalização, vem daqueles que a plenos pulmões berram para «deixar as crianças em paz» quando concerne a ensinar a respeitar. Percebemos, assim, que se trata de pura demagogia eleitoral, cavalgar no ódio alheio, nessa força que temos em nós e nos cabe domar para vivermos numa comunidade funcional, justa e fraterna. Não nos deixemos enganar pelo ódio.