Deixem as crianças em paz

De várias frentes ouvimos falar da infantilização dos jovens. Desde o tempo no ecrã à falta de desenrasque, são vários os exemplos usados. Este é visto como um sério problema à autonomia pessoal, à própria vivência em comunidade. Nas universidades, local onde frequentam jovens adultos, assistem-se a cenas de secundário, onde o não-saber estar parece imiscuído em parte destes novos estudantes.

Não só pelo desenvolvimento pessoal, mas também pelo impacto na sociabilidade, esta é uma questão extremamente pertinente de explorar. Porque acontece? O famoso TikTok? As sensibilidades? Havendo uma diversidade de problemas, maior é a diversidade de respostas. Aquilo que me parece é que estas questões em muito se relacionam com a educação (não ensino), pelo que os pais têm mais a haver do que aquilo que é costume se falar. A par de outros fatores, são as suas atitudes que moldam os jovens. No próximo parágrafo trago um exemplo corrente.

Fala-se de proibir o uso do telemóvel dentro das escolas. Ora há aqui uma decisão de base que temos de tomar: pretendemos pessoas com hábitos saudáveis ou incutir proibições? Julgo estar para aparecer a criança que não veja no fruto proibido um aliciante. Além de que o que devemos almejar é que os cidadãos sejam pessoas autónomas, capazes de tomar as suas próprias decisões, tendo como base o seu bem-estar. Uma escola é uma comunidade, regendo-se como uma: salvaguardar a liberdade de cada um, assegurando a integridade do outro. Não lhe compete outras escolhas, sendo o seu objetivo basilar o ensino (dos poucos elevadores sociais que existe). Essencialmente, educar está nas mãos dos progenitores e ensinar nas da escola – que até podem ensinar sobre o assunto, dar informação. Se os pais entendem que o filho não deve usar o telemóvel na escola, então podem escolher não o deixar levá-lo para a escola – mal estaríamos se as escolas não tivessem a capacidade de comunicar com as famílias, se os alunos precisassem. Assim sendo, colocar na escola o ónus da educação, implica uma mudança estrutural da sociedade: a abolição da família. Parece-me que os encarregados de educação que usam desta retórica, que eu entendo à luz dos malefícios que os telemóveis trazem [1], acabam por se demitir da sua tarefa, é uma desresponsabilização. Ainda para mais, fazer estas discussões sem incluir as próprias crianças e jovens é, por si só, contribuir para a sua infantilização, principalmente jovens a partir do segundo ciclo, ignorando quem está no centro do potencial da proposta. Em última instância, é uma noção muito errada da democracia, onde o paternalismo é ensinar a estar calado e aceitar o que outro impõe.

Julgo que muitas vezes nos esquecemos de algo: jovens são tela em branco. Em tudo. De que serve queixar que o filho está perdido no mundo virtual, se o pai passa horas e horas nas redes sociais? Quantos hábitos e formas de pensar não nos compõem por esta osmose? A própria abstenção parece-me um fenómeno de imitação, onde os filhos aprendem dos pais a desilusão e impotência sobre o regime democrático.

Houve, há e haverá sempre um conflito geracional, é algo inerente à nossa existência. Resta-nos tentar ser melhores, tentar refletir mais estruturada e aprofundadamente. Muitas vezes não nos apercebemos das nossas incoerências por, simultaneamente, não pensarmos em tudo a mesmo tempo, dividimos em compartimentos, mas que vida faz sentido sem pontes entre eles?

[1] https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2024/jan/10/smartphone-screenti...