Estava eu à beira do horror de preencher esta página com mais um assunto da atualidade política, quando me deparei com um vídeo no TikTok de um influencer português que me obrigou a mudar o rumo.
De que trata o vídeo de Miguel Queirós que reuniu 249 mil gostos e 918 comentários? É a caricatura de um estudante de uma universidade privada que colocado em confronto com obstáculos na sua vida ou na de um outro, como um assalto, uma mudança de pneus, ou um tropeção, reage com conhecimentos teóricos que estão presentes na escolaridade obrigatória. Por exemplo, reage ao assaltante começando a tocar flauta desajeitadamente, ou chega junto de um transeunte que tropeçou e questiona-lhe de que tipo é a oração subordinada que utilizou e, claro, num outro exemplo, ao ver o pneu furado, coloca-se a «medir o ângulo do furo», concluindo que pelo Teorema de Pitágoras não o consegue ajudar. São só alguns dos exemplos.
O vídeo é claro, de humor. Confesso ter-me rido bem a vê-lo, o problema surge quando, doentiamente, tive curiosidade em ler os comentários. Julgo poder aqui dizer «doentiamente» por todas as razões e mais algumas que este espaço de opinião já foi colecionando. Ora, eu ri-me da absurdidade do vídeo, denunciada explicitamente pela caricatura afetada da personagem, as pessoas dos comentários que li (doentiamente bastantes), contudo, riam-se das situações. Rapidamente perdi a vontade de rir.
O que está explícito nuns e subjacente em todos é de que na escolaridade obrigatória são ensinamos muitos conteúdos que em nada beneficiam as nossas atividades do quotidiano. Há um descentramento entre aquilo que é ensinado e aquilo que é utilizado. Os exemplos mais comuns normalmente referem o choque com a burocracia, algo para o qual não há preparação. Não vou abordar este assunto dizendo que quase todos os exemplos apontados estão presentes em várias disciplinas, como também em cidadania – deixo aos queixosos a tarefa de lerem os programas -, quero mesmo enfrentar as mais teóricas das afirmações que são afirmadas e defender a sua importância.
Neste mundo consumista em que vivemos preocupamo-nos primeiramente pela substância, pelo conteúdo, e tendemos a ignorar a forma, as estruturas. Pois bem, saber o Ciclo de Krebs, reconhecer tipos de orações, ou resolver uma equação de segundo grau não possuem valor somente por si, nem mesmo pela articulação de conteúdos, o seu grande contributo ao nosso desenvolvimento está no seu poder cognitivo. Com o desenvolvimento tecnológico, particularmente do digital, a nossa memória parece ter a tendência de diminuir, por termos ajudas externas, o mesmo com a nossa capacidade de raciocínio. A escola não só ensina como exercita. Treina as nossas faculdades cognitivas.
Depois há o lado do conteúdo que está na fronteira com a forma: este conhecimento criticado por ser excessivamente teórico, às vezes mesmo abstrato, não é entendido como uma grelha básica de interpretação. Nós queremos algoritmos, no sentido de instruções, para todas as nossas tarefas, mas se não soubermos a teoria de onde eles advêm, os problemas serão muito mais difíceis de resolver. Para desconstruir é preciso saber construir primeiro.
No último artigo falei da falta de seriedade que abunda no espaço público por parte de políticos, comentadores,…, mas ela vai muito mais além, aloja-se na multidão. Faz lembrar Le Bon. Quando temos um grande número de pessoas a dizer algo, o senso comum, ligamos um automatismo em que nos deixamos inebriar e encarreiramos nas falácias ad populum. Acomodamo-nos neste conforto que mais não é do que a ilusão de pertença. Talvez o aspeto mais perverso seja que quando temos esta atitude até temos a sensação de sermos os mais sábios no espírito crítico. Volto ao mesmo: não podemos falar de espírito crítico sem honestidade intelectual e vice-versa, claro.