Escrevo este artigo por volta das 23:30 de domingo (e acabo uma hora e meia depois), no calor dos resultados eleitorais. Começo por fazer uma breve análise macroscópica deles.
Estamos diante de um cenário de bipolarização. Já se antecipava essa tendência pela aposta numa coligação de direita, havendo a expectativa da concatenação de votos do PSD, CDS e PPM. Ora, não só houve concatenação como acréscimo. Mas o PS não ficou atrás, tendo também aumentado o número de votos (apesar de mingar em termos relativos). Ou seja, a diminuição da abstenção serviu para reforço destes polos. Seria interessante saber quantas pessoas não tiveram o voto condicionado pelos empates técnicos das sondagens, até porque elas próprias afirmavam um elevado número de indecisos.
Uma grande preocupação é que no meio da bipolarização tenha havido o crescimento expressivo de uma terceira força – o que não colocou em causa a bipolarização. Se virmos os votos de todos os partidos que não a coligação, o PS ou o CH, percebemos que os totais de 2020 e 2024 são muito semelhantes. Mais uma vez, parece ser a abstenção a peça chave. Houve sensivelmente mais dez mil votos, que é, aproximadamente o que estas três forças cresceram. Perceber que transferências estão em jogo é muito complicado, talvez mais tarde possa tentar avançar um cenário. Uma possibilidade é a migração do voto do BE para o PS como voto útil, algo que me parece bastante provável, até pela influência das sondagens e a estratégia do próprio PS. Existem várias dinâmicas locais que devem ser tidas em consideração e que, no fim, explicam o resultado ao final da noite.
De notar que em termos de mandatos, que, ao fim e ao cabo, é o que importa de uma eleição, a coligação conservou os mandatos que já tinha, sendo que a única mudança é interna: PSD conseguiu, se não me engano nas contas, engolir um deputado ao CDS e ao PPM – espanta-me nos comentários de domingo não se falar destas mudanças internas. Pela perda de relevo relativo do PS e BE, 3 deputados saíram destas forças, acabando nas mãos do CH. Esta, na prática, foi a única mudança na Assembleia: o enfraquecimento da esquerda e centro-esquerda em benefício da extrema-direita.
Posto tudo isto, a abstenção diminuiu, mas continua a ser, sensivelmente, de 50%. Não há como camuflar a descrença das pessoas na política. Enquanto candidato, foi o que mais senti nas ruas. Uma em cada duas pessoas (se bem que é preciso ter cuidado com a abstenção técnica) achou que o seu voto era desnecessário. Não obstante, quando olhamos para onde provavelmente foram os votos de quem em 2020 se absteve, vemos um aumento do CH.
Isto é particularmente problemático quando nos apercebemos que esta força é só retórica: fala de corrupção a toda a hora sem ter exposto qualquer caso de corrupção (como o BE fez incansavelmente e corajosamente), acusa os mais desfavorecidos de parasitismo, sem apresentar qualquer denúncia concreta, qualquer caso concreto. Em Santa Maria, o candidato (e independentemente do seu caráter) não participou em debates, tinha 9 propostas no manifesto e uma era repetição da outra, praticamente não fez campanha e quando abriu a boca, raras foram as ideias,… e, no entanto, conseguiu 170 votos.
Quase que me apetece dizer que as pessoas têm uma descrença na política e eu tenho uma descrença nas pessoas: a coisa que mais parecem valorar é o ódio, não importa o resto. Mas não o faço, porque há muitos mais que têm bom senso e estão atordoados. O castigo dos sérios que não querem governar é serem governados pelos maus. Eu farei parte dos que resistem.