A 20 de janeiro de 1940, Winston Churchill proferiu um discurso na rádio, enquanto membro do gabinete de guerra, sobre o estado da 2.ª Guerra Mundial e o papel dos Estados neutrais. A Segunda Grande Guerra tinha começado há poucos meses e muitos países do norte e leste da Europa permaneciam neutros.
Não estamos em guerra, mas nesse discurso — intitulado “The War Situation: House Of Many Mansions” — surge uma metáfora sobre o papel dos Estados neutrais e a ameaça da Alemanha nazi que se adequa, com desconfortável precisão, ao nosso tempo:
“Cada um alimenta bem o crocodilo esperando ser o último a ser devorado.” (Tradução minha)
O crocodilo de hoje assume várias formas e ocupa diferentes espaços geográficos e políticos. O crocodilo em Portugal não esconde a sua face, ao invocar Salazar. E, perante essa ameaça, há quem prefira permanecer neutro.
Na primeira volta das eleições presidenciais votei convictamente na Catarina Martins, que falou dos problemas reais do país. Na segunda volta só há um candidato democrata, António José Seguro. A escolha é simples.
Discordo de muitas das suas posições, não esqueço decisões do passado mas espero que defenda a Constituição e a classe trabalhadora. Reconheço um democrata quando o vejo.
E, pelo mesmo critério, reconheço quem pretende impor um regime autoritário em Portugal. Não estamos perante um debate entre moderação e radicalismo. A escolha é entre quem defende a democracia da Constituição de Abril e quem a quer substituir.
O PSD, a IL e o CDS — toda a direita parlamentar (o PPM nos Açores já falou?) — partidos de várias direitas, preferem a neutralidade à defesa da democracia.
Como disse Churchill, alimentam o crocodilo, cada um com o seu repasto, esperando não ser devorados ou sê‑lo o mais tarde possível. E, se tudo correr bem para eles, esperam que a esquerda e os democratas que recusam a cobardia da neutralidade travem o crocodilo e os salvem também a eles.
Nos Açores, o crocodilo tem sido bem alimentado pelo PSD/Açores e restantes parceiros da coligação. A neutralidade do PSD/Açores e dos seus parceiros é, por isso, até um recuo face à aliança que mantêm com o CH desde então.
Mas tanto Bolieiro como Montenegro — apegados ao poder e dependentes do crocodilo para o conservar — sabem que apenas adiam o dia em que o crocodilo os tentará devorar definitivamente.
Como em tantos momentos da história, cabe a quem não recua perante o avanço dos inimigos da democracia construir a força que os irá travar. Na segunda volta, e na luta diária por uma sociedade mais justa e solidária, secaremos a fonte que alimenta o ressentimento e o ódio.