Este domingo que passou tivemos um aperitivo daquilo que nos espera de agora em diante do outro lado do Atlântico. Muito foi o alarido sobre o fim da rede social TikTok nos Estados Unidos marcado para o dia 19. De facto, a partir desse dia, apareceu uma mensagem na aplicação a afirmar ser impossível abri-la, mas já com um tom de esperança: a declarar a sorte de Trump querer impedir o banimento. Qual não é a surpresa de poucas horas depois, ainda dia 19, portanto, já aparecer uma mensagem de boas-vindas a agradecer a Trump os «seus esforços» e, portanto, a permitir a utilização da aplicação, como se nada fosse. Relembremos que a tomada de posse presidencial está marcada para amanhã. Aquilo que continuaremos a ver serão jogadas de bastidores, muitas vezes bem às claras, que denunciam a oligarquia e as agendas pessoas dos seus agentes, usadas como uma forma de propaganda. É claro e evidente que o poder económico abraçou esta virada que nos reporta para tempos sombrios: desde um governo composto por vários multimilionários, a grande influência de Musk às grandes redes sociais estarem todas orientadas.
Quero acreditar que a pergunta que está nas nossas mentes é de como aqui chegámos. Em 2017 muito se perguntou. Em 2020 e 2022 parece que fazer essa pergunta podia ser rasgar uma frágil harmonia. Hoje essa pergunta é crucial, porque como ela envolve a memória histórica de um dos mais horrorosos e trágicos episódios da história humana, o Holocausto, pode ser que quem ainda se iluda possa abrir os olhos. Desde a década passada se diz: estamos a experienciar o ressurgimento de uma onda fascista, de movimentos autoritários que restringem a liberdade com a promessa de segurança e estabilidade.
Permitam-me a ousadia de aqui trazer um mecanismo que me parece central para explicar esta deriva que também sentimos no nosso país (basta ligar a televisão para ver como nos querem tornar mediaticamente e politicamente nuns EUA de marca branca). Esse mecanismo está presente em quase todos os artigos que aqui escrevo, mas na sua maioria das vezes não está explícito: é o dividir para reinar. É a polarização das questões. Não me interpretem mal, o problema aqui não é a existência da polarização: se houve um pensamento único, então já estávamos num caminho irreversivelmente mau. O grau da polarização é um problema, certamente, por impedir a discussão estruturada, mas, acima de tudo, o grande problema reside nas questões: o nosso esforço é desviado para temáticas que não são estruturais. Desta forma, então se discute a cor da parede, há alguém que a vai partindo – e, pasme-se, esse alguém é o mesmo que alimenta a discussão da cor. Quando se for a ver, já não há parede para pintar.
As redes sociais são uma excelente forma contemporânea de instrumentalização: ao mesmo tempo que cria bolhas de pessoas com características semelhantes, vai introduzindo conteúdo de acordo com essas caraterísticas sobre assuntos polémicos. No Facebook, por exemplo, tenho sempre conteúdo de páginas de apologia ao Estado Novo a aparecer-me, apesar de clicar para ocultar. No TikTok aparecem-me várias vezes contas de extrema-direita, apesar de não seguir nenhuma. Esta é a instrumentalização mais direta, mas conteúdo feminista, LGBT,…, é facilmente usado como estímulo a esta polarização através de caricaturas.
A única forma de evitar a instrumentalização, quer das redes sociais, mas também aquela promovida pelos discursos políticos e até mesmo por órgãos de comunicação social é preciso perguntar sempre o porquê? Quem, como, quando, estas perguntas jornalísticas sobre o contexto que são trabalho. Não é preciso estarmos a fazer sempre isto, mas quando dermos por nós a começar a pensar ou dizer coisas mais ortodoxas, é melhor ir confirmar.