Todos nós somos diferentes, é certo, mas existem modos de agir semelhantes. Correndo o risco de cair num falso dilema, afirmo que temos essencialmente dois tipos de pessoas: quem vê o mundo como um conjunto de colisões e quem o vê como uma teia.
Na verdade, ambas me parecem legítimas, no entanto, uma afigura-se como a escolha mais sustentável para a nossa comunidade.
Quando falo em conjunto de colisões, é como se cada indivíduo vivesse em bolhas separadas que, por forças externas, acabam a colidir umas com as outras e a provocar relações. Isto acarreta uma grande consequência: cada pessoa é completamente independente de quem não conhece, «ninguém deve nada a ninguém».
Por outro lado, podemos ter a perspetiva de uma comunidade enquanto teia. Mesmo que não nos conheçamos, de alguma forma estamos relacionados com alguém, nem que seja pelo simples facto de fazer parte da mesma comunidade. Em termos científicos esta ideia está bem patente na genética: temos uma relação enquanto espécie. Ainda na ciência podemos falar no facto de sermos constituídos por unidades fundamentais da matéria que se encontram em todo o lado. Assim sendo o que nos distingue de uma rocha? De forma superficial, a resposta parece ser o mero acaso.
É justamente porque somos um acaso, que devemos ter em mente o papel da empatia. Não só com outras pessoas, mas também com que nos rodeia.
Uma visão individualista faz-nos esquecer que o outro é alguém como nós: dotado de pensamento e emoções. Aquelas regras do «não faças aos outros o que não queres que façam a ti» é o resultado de termos consciência disso. Ações tão básicas como agradecer um gesto de boa educação acaba por ser colocado em segundo grau. É claro que podemos delinear aqui um espectro no individualismo, mais uma vez, não quero incorrer no falso dilema.
Mas a verdade é que me parece que, atualmente, aceitar um panfleto, por exemplo, é quase uma ação de cariz político. Quem de entre os leitores já andou a distribuir flyers, ou recolher assinaturas? Dos que o fizeram, quais os que ignoram quando alguém na rua os abordam nesse contexto? É a empatia por experiência própria.
Estamos no meio de um tsunami: entre a crise climática, social, económica e pandémica. E estas são as que me lembro por saber que me afetam pessoalmente. Nós não as vamos ultrapassar sem cooperação. Não temos de concordar com todos, nem temos de ser todos iguais: temos de reconhecer que estamos no mesmo barco. Temos de reconhecer que existe um futuro possível onde cada ser humano pode viver com dignidade e em harmonia entre si e com o meio ambiente.
A parte boa de vivermos em democracia é não termos de esperar que os governantes tomem a ação. Somos nós quem os escolhe. Somos nós quem dita qual o rumo a tomar. E mesmo quando quem prometeu fazer algo não o faz, temos meios de pressão. Nunca tivemos um grau de comunicação interpessoal tão elevado. Com organização chegamos lá. O mote do «pensar global, agir local» pode ser uma bola de neve.
Mas esse movimento não chega longe se não virmos a nossa comunidade como uma teia. Se seguirmos em frente sem olhar para quem nos rodeia, só nos estamos a sabotar e às gerações futuras.