Com maior ou menor grau de humor, já disse várias vezes a estudantes de Filosofia no Ensino Secundário que esse estudo serve para dormirem melhor à noite. Escusado será dizer como normalmente é o oposto que se ouve: levantar questões é pedir para nos roubar o sono.
De facto, as angústias que vivemos costumam ter atrelados muitos pontos de interrogação. São sobre nós, sobre os outros, sobre onde vivemos ou até sobre Deus. Estas questões aterrorizam-nos porque são abismos, não avistamos as suas respostas, desesperamos.
É certo que é trabalho da Filosofia expor questões (alguns até diriam que é o campo das velhas questões, tendo em conta as suas recorrências), não obstante, o que isso significa é que, por um lado, se constroem boas questões, e que, por outro, se lhes ensaiam respostas possíveis. Deste modo será fácil como podemos dormir à noite: afugentamos dos nossos receios aquilo que obstaculiza à sua compreensão e atiramo-nos ao seu sentido.
Ler, por exemplo, as «Cartas a Lucílio» de Séneca é testemunhar essa dinâmica. Trata-se de com conjunto de cartas com cerca de 2000 anos que, com a tradução de Segurado Campos na edição da Fundação Calouste Gulbenkian, nos dizem tanto. São, na verdade, uma conversa nos mesmos termos que em 2026 podemos ter sobre aspetos quotidianos que em 2026 nos atormentam. É certo que este é só um exemplo, que denota uma resposta muito específica que se designa como «estoicismo», não obstante é uma obra eminentemente de carácter filosófica que problematiza a partir do dia-a-dia e, como tal, é facilmente compreensível. Muita autoajuda que por aí anda baseia-se, ou melhor, inspira-se em movimentos filosóficos que pretendem descrever o modo como devemos viver a vida.
Quando comento com os estudantes que a Filosofia os ajudará a dormir melhor, aponto para o potencial que os seus conhecimentos e competências têm para nos autoanalisarmos. Para que consigamos justificar porque pensamos ou agimos de determinada forma e não de outra. Para justificarmos a nós próprios quem queremos ser.
É mais do que sabido que fugimos do que desconhecemos. É o instinto do animal que nunca sabe se se tornará presa. Até da própria ignorância fugimos, não se vá dar o caso de nos vermos diante da nossa pequenez. A luz é que tem vindo a servir de metáfora à iluminação da verdade, ao desvelamento dos medos. Funciona, porque a luz é o que nos permite ver, um contacto que dá sentido, que seca todos os monstros criados assentando no receio do escuro. Tentar fazer a pergunta certa é posicionar a lanterna para o sítio certo que, se assim for, iluminará nem que seja uns contornos para esboçarmos as nossas explicações.
Para que isto seja possível, é precioso estarmos abertos ao mundo. Deixarmo-nos tocar por tudo aquilo que nos rodeia, prestar atenção ao que normalmente negligenciamos, pararmos, observarmos, sentirmos o tom e a história de alguém. E procurar. Investigar. A curiosidade e a experiência aguçam-nos a nossa capacidade de problematizar, de saber fazer questões. O conhecimento e a informação permitem diversificar os caminhos para se responder a uma mesma questão – permite-nos uma conceptualização mais complexa, mais possibilidades de relacionar conceitos. E tem de haver intencionalidade, temos de o querer fazer e ser conscientes das escolhas que fazemos. Temos de conseguir argumentar sobre os caminhos trilhados.
É mais fácil falar do que fazer, principalmente se o estômago estiver vazio, se as contas se avolumarem, se os algoritmos nos prendem. Mas são essas excelentes razões para o fazermos.