E agora?

O país está a viver dias trágicos. Perante o sofrimento de tantas famílias vítimas de tragédias naturais, ficámos atónitos com a proximidade dessa dor. A campanha para a segunda volta das presidenciais ficou num plano distante, na verdade, quase parece que nem houve eleições. Bem sei que ainda assim houve a polémica sobre o adiamento das eleições. Na prática, um movimento demagógico: a lei já contempla que locais em estado de calamidade possam fazer esse adiamento – tanto que aconteceu. Um triste exemplo de instrumentalização das vítimas.

Na verdade, esta tragédia não justifica totalmente o quase desinteresse (para não dizer desinteresse quase completo) do país para com a segunda volta. A sua previsibilidade, a vitória praticamente garantida de Seguro fizeram desmobilizar o interesse no debate. A verdade é que nada está garantido e os portugueses reconheceram-no indo às urnas praticamente com a mesma participação da primeira volta. Eu fui dos que foram só para cumprir com o contributo mais básico para a manutenção da democracia.

Esta saber, agora, o que podemos esperar. Ao longo desta campanha vimos um António José Seguro coerente e medido nas suas ações e palavras. Falou nos sítios certos, nos contextos certos, e deu espaço ao escrutínio da comunicação social nos momentos pertinentes. Trata-se de uma postura muito diferente do atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa. Existe uma seriedade e um peso institucional que são carregados com seriedade e sobriedade. Certamente que no tempo dos influencers, isto pode ser visto como oldschool, até pode ser visto como mais do mesmo, como elitismo. Independentemente de outras considerações, parece-me uma boa notícia: sente-se a responsabilização: não se trata de uma figura pública, mas do mais alto representante do povo português. Quando as instituições são tão atacadas, o respeito institucional é uma lufada de ar fresco*. O facto do início do seu discurso de vitória ter sido dirigido às vítimas das recentes tragédias e principalmente à resposta que é preciso ter, mostram sinais promissores de um verdadeiro estadista.

A verdade é que já passou a lua de mel: António José Seguro terá de ser marcante além da sua forma de agir. Ainda está bem presente na memória a sua proposta, há um ano apresentada, sobre o Orçamento de Estado não ter de ser aprovado na Assembleia – já para não falar de acontecimentos com mais de 20 anos. Perdoa-se o excesso de neutralidade a bem de uma suposta imparcialidade com fins eleitorais, apesar de ser evidente que sem escolhe a neutralidade está a tomar um caminho igualmente ideológico – caso seja essa a alergia.

Não estou convencido de que este não tenha sido o melhor cenário para o governo. António José Seguro facilmente promulgará tudo o que o governo lhe apresentar – oxalá faça um pouco de frente às maiores indecências como o pacote laboral. Não se espera grande defesa do povo português e, ao mesmo tempo, sendo supostamente de uma área política distinta da do governo, Montenegro ainda vai vir por aí abaixo a armar-se em vítima sobre o PS que o restringe, ou rejubilará pela sua capacidade em construir pontes com pessoas tão distintas. António José Seguro parece servir bem Montenegro. Aguardemos pelo conteúdo.

*Falo do ataque à sua raiz, à sua existência. Bem sabemos como grande parte das nossas instituições falham e geram desconfiança, precisam de uma reforma, mas isso não significa deitar fora os seus valores, antes radicalizá-los.