Outro dia estava a tomar banho e a pensar no conforto que é estar numa banheira a lavar-me. Uma esmagadora maioria de nós já tem esta comodidade, algo que em meados do século passado os meus avós não achavam falta.
Temos pessoas, hoje ainda, que gostariam muito de ter uma divisão da casa com acesso à água e onde existisse uma banheira.
O meu foco não é tanto o privilégio, não obstante, penso que é sempre pertinente referi-lo para termos consciência de como a nossa vida é incomparavelmente melhor ao que já foi no passado, mas lembrando que muita gente, na nossa e noutras geografias, espera ainda por sentir grande parte dessas melhorias - que se note que as alterações climáticas constituem, provavelmente, o pior momento na História em que esta questão do progresso deverá ser colocada em causa, ainda neste século.
O que me importa aqui é mesmo a banheira. Ou melhor, a evolução que ela representa.
De um alguidar com água aquecida num fogão, uma realidade muito comum a uma geração de distância, passamos a um espaço na casa de banho onde podemos, felizes da vida, molhar tudo o que está em volta com a precisa temperatura que queremos. Tendo uma pequena evolução em mente, o instinto é perguntar: e depois das banheiras? O que vão inventar que melhorará as condições em que nos lavamos, cumprindo a nossa higiene?
O interesse nesta minha pergunta aparece quando me apercebo que não consigo conceber uma melhoria, mas ela provavelmente, existe. Isto aplica-se a tantos mais exemplos, sendo, por exemplo, por esta razão que as atividades humanas tendem à especialização.
O futuro reserva-nos um conjunto de “mordomias” que hoje até se nos podem parecer desnecessárias. E é aqui que me aparece um segundo ponto: “A máquina do tempo” de H. G. Wells. Neste livro inaugural das viagens no tempo, até mais do que a questão de desigualdade, de divisão social, me parece muito interessante a própria forma como a evolução humana é perspectivada ficcionalmente a uma distância de oitocentos mil anos.
Basicamente o argumento será: em algum ponto, os poderosos decidiram reivindicar a si a superfície terrestre, renegando os trabalhadores para o subsolo.
Como os da superfície tinham o que precisavam, explorando os do subsolo, e não tinham qualquer contacto com as técnicas como as suas necessidades eram satisfeitas.
Isto levou a aqueles que detinham o poder pudessem viver felizes e em harmonia, apesar de terem visto o seu físico a perder força e a sua inteligência a mingar, por não precisarem de nenhuma destas faculdades. Ou seja, ao mesmo tempo que vivemos numa sociedade que olha com entusiasmo para novos modelos de todo o tipo de equipamentos, fascinada pela tecnologia, há também uma tendência para não conseguirmos interpretar a realidade no seu todo.
A facilidade de conseguirmos ter algo parece constituir um bem em si mesmo, sendo desejável, até, nem complicar - no limite, os outros complicam por nós e partilham os frutos.
Em concreto, num mundo com tanta informação é uma urgência a educação providenciar as várias literacias, que sirvam de ferramenta pela busca de informação fidedigna, bem como para desconstruir qualquer informação que nos aparecer, de forma a se conseguir a informação mais correta possível. Estas literacias relacionam-se, por exemplo, num combate a fake news, mas também à leitura de rótulos nos mantimentos, ou a bases de conhecimento científico.
Mais do que qualquer paternalismo, é dar o poder às pessoas para conseguirem sair das redes de manipulação em que são constantemente imbuídas. É isto que as banheiras fazem.