Quando o Presidente da República dissolveu o parlamento em dezembro de 2021 não tinha certamente como objetivo garantir uma maioria absoluta ao Partido Socialista. Com a dissolução da Assembleia da República, Marcelo Rebelo de Sousa aliou-se a Costa e procurou tirar força à esquerda, afastando definitivamente qualquer possibilidade de Bloco e PCP poderem influenciar de algum modo o governo minoritário em funções. Pelo caminho tentava ainda dar uma chance a um possível governo de direita, à semelhança da solução dos Açores. Marcelo conseguiu um dos objetivos: tirar força à esquerda.
Ao mesmo tempo, o Presidente permitiu que António Costa, que há muito desejava a maioria absoluta, tivesse caminho aberto para a pedir aos portugueses, vitimizando-se e usando a ameaça da extrema-direita para concentrar votos no PS. Com enorme sucesso.
O Presidente faz demasiadas vezes do taticismo político a sua única bússola, colocando as intrigas palacianas à frente dos problemas do país. O resultado do taticismo raramente é bom. Desta feita resultou na maioria absoluta do PS.
O governo da república de maioria absoluta do PS apresenta várias diferenças dos anteriores governos, mas uma das mais evidentes é a enorme arrogância política, um sentimento de autossuficiência que lhe permite governar como se pudesse dispensar os formalismos, a transparência e até mesmo o decoro.
A trapalhada interminável que a comissão de inquérito à TAP tem revelado nos últimos tempos e que resulta, não das dificuldades que o governo tem de enfrentar, mas da sua própria atuação é o retrato de um governo cuja existência é a sua razão de ser. A péssima relação com a verdade em todo o processo TAP revela uma profunda sobranceria política.
Neste contexto, o Presidente da República tem levado ao extremo o taticismo político. Passa a legislatura a debitar na praça pública avisos constantes sobre a utilização da bomba atómica, a dissolução do parlamento, e sobre as alternativas de direita. Em nada esses constantes avisos contribuem para resolver os problemas do país.
Agora, Costa decide afrontar Marcelo mantendo em funções o ministro das infraestruturas, cuja credibilidade política dificilmente poderia estar mais baixa depois do episódio rocambolesco da passada semana.
Costa e Marcelo entram assim num jogo de poder perverso. Dificilmente alguém sairá bem deste jogo mas é certo que o país está a perder e vai continuar a perder.
O país perdeu quando o Presidente da República aliou-se a Costa para tirar força à esquerda. O país perdeu quando o PS teve uma maioria absoluta. O país perde com um governo que não tem nada para dizer ao país. Que coloca o país, atónito, a assistir à sua atuação disfuncional e que usa o Estado quase como se fosse seu.
Ao mesmo tempo que o povo assiste aos noticiários intermináveis sobre pareceres fantasma, indemnizações milionárias, brigas de gabinete e serviços secretos - um grotesco retrato dos bastidores de um governo disfuncional - faltam quaisquer soluções de fundo para o empobrecimento, para a crise da habitação e para os serviços públicos que se degradam.
Foi para isto que Marcelo dissolveu o parlamento em 2021. É bom que as prioridades do governo e do presidente mudem. É bom que passem a colocar os problemas das pessoas à frente das lutas de poder.