Cada pessoa é uma pessoa. A única realidade que conhecemos minimamente bem é aquela que vemos pelos nossos olhos, sentimos na nossa pele e construímos no nosso cérebro. Por isso mesmo, muitas vezes sentimo-nos sós nos nossos pensamentos. Qual é o impacto político desta perceção?
Quem nunca não ouviu numa conversa de café as frases «Pois, é, mas ninguém pensa assim» ou «Anda tudo com palas nos olhos»? Elas, normalmente, são ditas quando alguém está a criticar algum aspeto da nossa comunidade junto de outra pessoa. Não será irónico que elas sejam ditas num diálogo em que, normalmente, as duas partes concordam no tema? Afinal, se mais ninguém tem essa opinião como pode outra pessoa concordar? A verdade é que este pensamento é também altamente contraditório: diz-se que algo está mal, mas também não se faz nada, porque não vale a pena, ninguém vê o problema – que está, justamente, a ser exposto a um terceiro!
Este raciocínio aborrece-me particularmente por soar a um atestado de burrice. Todos nós temos cabeça e sentidos. Todos percecionamos a realidade. A única diferença é o interesse e disponibilidade que depositamos em percebê-la e pensá-la. No entanto, é mais que lógico que num sistema em que as pessoas vivem para trabalhar, como é este em que estamos, muita gente não tem condições para o fazer. Não quer dizer que não vejam ou que não tenham capacidade para perceber, simplesmente não conseguem fazer tudo.
Agora, também existem pessoas que conseguem reunir tempo suficiente para refletir. Muitos dos que têm o discurso vazio aparentam ter tempo e, como tal, deveriam, nem que seja a bem da sua consciência, decidir tomar uma postura construtiva e desencadear uma ação. Reclamar sem nada fazer não vale. Além desta tomada de atitude é necessário algo muito importante: empatia.
De nada nos serve espalhar uma mensagem se não tivermos a capacidade de percebermos que ela pode ser melhorada. Voltando ao início: temos de ter consciência que somos uma pessoa, existem outras com outras experiências de vida, com outras sensibilidades. Precisamos de empatia para nos colocarmos na posição do outro, ter a humildade de ouvir e nunca partir do princípio que estamos em vantagem intelectual.
Todos nós somos agentes de mudança, entidades políticas, temos de ter a responsabilidade de nos comportarmos como tal. Apesar dos cafés poderem ser importantes focos de reflexão, as questões resolvem-se muitas vezes fora deles. Cheguemo-nos em frente!
Nos Açores, enquanto espaço pequeno e fragmentado, parece que tomarmos uma atitude é algo esgotante e quase arriscado, que se tomarmos posição ou partido (literalmente ou não) podemos ditar o nosso desemprego. Isto revela mais sobre a necessidade de renovação do cenário político açoriano do que dos açorianos. No entanto, e por experiência própria o digo, quando temos pessoas-exemplo que vencem o receio e avançam, existe uma injeção de esperança e motivação noutras pessoas. Uma espécie de efeito dominó que nos leva a agarrar essa ação, desenvolvê-la e continuá-la.
Não sejamos o rabugento do café, mas sim o construtor empático.