Antes de estar de regresso à vida estudantil, estou de regresso ao Porto. Para o fazer apanhei dois aviões que me puseram a pensar – talvez contemplar seja melhor palavra. Ainda sem descolar olhava pela janela e pensava na sorte que tinha por ter nascido no meio daquela paisagem. Tanta terra, tantas gentes, e acabo por existir nuns noventa e sete quilómetros quadrados que dão pelo nome de Santa Maria. Pela janela vejo um espaço plano totalmente alterado por obra humana, mas ainda assim com tons de encher as vistas, quilómetros quadrados de pastagens com uma vegetação que as povoou pela sua aridez, vejo uns conjuntos de casas gémeas que testemunham uma retrotopia da mitologia popular, vejo mais ao fundo um segmento de reta branco, a aorta da presença humana. Ao fundo uns montes que nos fazem imaginar o que Gonçalo Velho poderá ter visto. Mas talvez o verdadeiro transe seja das encostas: o momento em que o azul aparece, onde uma última réstia de verde é o conforto do, julgamos, conhecido. Atrever a olhar o horizonte é questionarmo-nos o nosso estado de espírito: vemos possíveis novos mundos ou a asfixia que espreita, vemos o tudo ou o nada, sentimos a potência ou a impotência. (os quadros de Antoine Noguez bem nos avisam) Nisto, já o avião levantou, ficam os recortes ornados pela espuma e surgem as baixas: o que há ali? Muitos são os que me saberão responder e mostrar fotografias, mas já a reflexão vai longe, no volume assombroso do oceano. É nas nuvens que percebo a sorte de com regularidade experienciar a visão de um pássaro, de como sentar junto de uma janela no avião é um sonho de milhões que já não existem e de outros tantos que nunca terão a oportunidade de o fazer. A humildade do privilégio e das ordens de grandeza instala-se. São Miguel aparece como um manto verde, sendo a cidade um formigueiro. De qualquer que seja a distância que se veem as nossas ilhas, qualquer que seja o sentido sensorial, o gosto estético, os Açores são um paraíso. Somos uns pontos no meio do Atlântico, não faltam preciosidades e paragens igualmente fantásticas neste globo. Estas são aquelas que temos o prazer de atuar.
É perante toda esta beleza, numa total arrematação, que me pergunto: de onde vem a nossa fealdade? Como é possível que com vistas tão cheias, sejamos capazes de produzir injustiças, violência,… Como criámos um sistema em tons de cinismo, um jogo distópico onde são as lotarias natural e social os principais garantes de conforto? E como nos permitimos a viver e ser liderados num sistema assim? Estas questões são feitas num tom leviano e numa ténue comparação, mas julgo que isso não retira a sua importância.
Confesso que esta reflexão foi influenciada por uma notícia que tinha acabado de ler: Macron, presidente francês, decidiu indigitar como primeiro-ministro Michel Barnier, um conservador de um partido que reuniu 5,41% dos votos e que conta com o aval de Le Pen. Face à vitória da coligação de esquerda com quem os liberais fizeram a frente republicana, esses mesmos liberais decidiram agora ceder o governo à influência da extrema-direita. Em vez de subir o salário mínimo ou baixar a idade da reforma, os neoliberais preferem a retórica anti-imigração e o garante de não subir os impostos aos mais ricos dos ricos. Macron colocou os seus interesses e os da sua classe à frente do seu povo. Infelizmente, não nos faltam Macron’s – em Portugal também somos governados por um.
Isto só me lembra um livro: A Barata de Ian McEwan: uma paródia à Metamorfose de Kafka, mas neste é a barata que se torna em pessoa – o primeiro-ministro do Reino Unido.
Aterro com as mangas arregaçadas.