Ergástulo e nós

O país mediático coloca, naturalmente, os seus olhos nos resultados das eleições presidenciais, debitando palpites sobre o que acontecerá na segunda volta além de tentar explicar a primeira. Atendermos a este movimento permite-nos, na verdade, fazer uma crítica à própria democracia, ou melhor, ao processo democrático em que vivemos.
Algo transversal às democracias ocidentais consiste no modo como os atos eleitorais em específico e a comunicação política em geral se traduzem numa corrida de cavalos. O conteúdo político não é o projeto de sociedade, mas sim o ranking da popularidade. O êxito das sondagens e em especial das trackingpollsé sintoma disso mesmo.
Na verdade, esta constatação é intuitiva na opinião pública se a formularmos como uma ode ao clubismo partidário. O mais bizarro aqui trata-se do modo como, afirmando essa verdade, se empurra logo de seguida toda a responsabilidade e se instala a inércia. Sabemos o que está mal, mas não lutamos pelo melhor.
A partir do momento em que reconhecemos o esvaziamento do debate político, deve ser nosso dever enriquecê-lo. Não se trata de da noite para o dia passar a ser tribuno e candidatar-se aos altos cargos da nação. Trata-se de, junto da nossa comunidade, participarmos civicamente. Trata-se de fazermos valer os nossos direitos no quotidiano com um sentido de justiça. Trata-se de nos aproximarmos das associações, das paróquias, dos sindicatos, dos clubes, das entidades que agregam e mobilizam e nos juntarmos para construirmos um espaço público vivo e participado. Trata-se, acima de tudo, de exercitar a crítica e de, aliás, ser um militante dessa mesma atitude.
Uma atitude crítica é seguir o caminho da busca do radical, ou seja, da raiz. Uma atitude crítica é tatear os limites. Uma atitude crítica concretiza-se em ser capaz de pensar, exercitar a razão, de forma estruturada e rigorosa sobre um objeto definido.
Esta atitude está nos antípodas do sentido pejorativo conotado à tentação cínica do abate cego, como está aliás também nos antípodas da oca certeza que caracteriza o conspiracionismo. Não nos esqueçamos que o corolário do espírito crítico é a humildade intelectual, é o exercício consciente e inconsciente da autocrítica.
Não se fique, contudo, com a ideia ingénua e cínica de que esta atitude denota um sábio e que se não é generalizada é por falta de vontade de iluminação. A política como corrida de cavalos não é somente um sintoma, mas também uma causa moldando a discussão e reflexão no espaço público. São inúmeros os outros sintomas que se tornam causas, justamente por serem esses fenómenos que permitem a manutenção de uma organização societária tão injusta e desigual. A experiência da escassez de tempo é praticamente universal e traduz-se na busca de escapes inerciais ou na própria inércia. A ausência de tempo no nosso quotidiano é na verdade o esgotamento da nossa energia mental. Uma energia que se dissipa pelo assoberbamento dos estímulos com que constantemente vivemos. No caso das classes onde a desigualdade material é pela negativa mais evidente, esta ausência de tempo revela de facto também o seu sentido literal. A uns atira-se areia para os olhos, a outros são as próprias correntes que os cegam.
Julgo nunca ter estado tão certo em relação a um dever moral que me assiste. Se me permitem esta intromissão da vida pessoal além do pensamento, recordo que sou estudante do mestrado em ensino de filosofia. O que antes era uma inclinação, esta semana tornou-se um imperativo. Comecei a ser professor, assumindo a minha parte na demanda pela emancipação intelectual.