Erros de perceção

Vamos começar o ano com uma introspeção. Já são incontáveis as vezes em que me refiro aqui à aceleração da vida, ao assoberbamento que sentimos e que nos deixa exaustos.

Quando falo em aceleração, é aludindo ao conceito físico que se traduz na variação da velocidade. No nosso caso, na nossa sociedade, assistimos a uma aceleração positiva, consistindo no aumento da velocidade. Trata-se de um conceito hoje muito utilizado na sociologia e na filosofia, com o pensador alemão Hartmut Rosa como um dos seus maiores proponentes. O desenvolvimento tecnológico é um dos maiores potenciadores dessa aceleração: quanto mais o nosso quotidiano depender de tecnologia, mais evidente será a aceleração, afinal o desenvolvimento tecnológico está, ele próprio, acelerado. Processos do dia-a-dia como comunicar com alguém, escrever um relatório, acostumar a um novo sistema informático, requerer algo a um serviço, incluindo serviços públicos, são acompanhados da expectativa de imediatez. Hoje é possível falar com outra pessoa do outro lado do mundo instantaneamente, nas nossas ilhas não faltam testemunhos de gente viva de uma comunicação muito mais lenta dentro da própria ilha. Só este facto estruturante do nosso dia-a-dia já nos mina a virtude da paciência. A nossa vida é marcada por prazos que nos perseguem, temos tarefas para despachar em cada vez menos tempo a bem da produtividade.

O desenvolvimento tecnológico é efeito e causador do aumento exponencial da informação. Além de vivermos a correr, cada vez mais apressados, vivemos numa manancial de informação: são conhecimentos que temos de adquirir, são redes de burocracia que se adensam, são publicidades por todo o lado, é a música constantemente nos fones, são todos os livros que temos de ler, são os dados que temos de tratar, é o scroll infinito nas redes sociais, são as notícias que se atualizam ao minuto,… Sentimos uma urgência de consumir tudo e de produzir ao máximo. As perceções hoje que temos sobre nós e sobre o mundo são profundamente marcadas por estes desenvolvimentos.

Há várias estatísticas que indicam que, em média, os indivíduos adultos passam pelo menos 6 horas do seu dia a olhar para écrans. Recebemos centenas de notificações por dia. Isto só para falar em como somos assoberbados pelos telemóveis. Os conteúdos das redes sociais duram uns segundos, mas passamos horas nelas, veja-se o manancial de estímulos! Não admira que nos seja tão difícil empenhar-nos em atividades menos estimulantes, como brincadeiras ao ar livro, ou ler um livro na cama de rede. Ironia das ironias: refugiamo-nos nesses estímulos constantes para fugir à aceleração.

Outro dia estava a dar uma volta de carro sintonizado na Antena 2. De repente, apercebi-me que estou a ouvir mais música clássica. Ao pensar no assunto, cheguei à conclusão de que é uma resposta inconsciente à procura de menos informação, de menos estímulos: a procura por sons de instrumentos físicos, onde as camadas de informação são os sons desses instrumentos. É claro que a música clássica tem uma enorme densidade, aquilo que digo é que é desprovida da voz humana que nos faz meditar sobre o que diz ou das construções digitais que acrescentam novas sonoridades. Apercebi-me do refúgio no papel, para ler e escrever. Apercebi-me do interesse em escolas helenísticas, como no estoicismo. Apercebi-me, portanto, em como se procura um porto seguro em etapas anteriores de desenvolvimento tecnológico.

Apercebi-me do erro de perceção que podemos ter: estas respostas não são reacionárias, uma postura conservadora, antes um exame crítico. São a bolsa de ar do conhecido para escrutinar o desconhecido. Estamos num constante jogo de resignificação.