Estas eleições antecipadas vêm com um cheiro azedo. O meu receio é de que seja a democracia putrefacta, ou melhor, o espírito democrático. Permitam-me começar com o caso e depois, então, desenvolver.
No passado dia 13 de março, o jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho da SIC publicou no Expresso um artigo de opinião, «Eu não sou medricas, tu é que és», sobre as eleições antecipadas. Numa das citações que circulam pelas redes sociais do Expresso, é possível ler-se «Vamos todos perder tempo e crença com mais campanhas». Para ele, Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro «parecem querer servir, antes de tudo mais, as próprias claques».
É-me difícil ler estas palavras sem nelas colocar a ambição política que este jornalista pode ter. Trata-se de uma demagogia centrista, na medida em que é um comentário de café que pretende afirmar-se como o bom senso, que culpa os partidos políticos, sem qualquer visão construtiva. Já dizia o outro: a democracia representativa é o pior de todos os regimes, à exceção de todos os outros. Eu próprio acho que o sistema deve ser estruturalmente mudado, mas apontar baterias aos partidos desta forma não é outra coisa que não desonestidade intelectual.
O pior destas afirmações nem foi isto, mas a conclusão que se retira: as eleições como «perda de tempo». Estamos a falar de um pivô de um dos telejornais mais vistos do país.
Esta retórica não é nova e muitas vezes vêm associada à questão financeira: eleições como um desperdício de dinheiro. É certo que as eleições custam dinheiro [1], tal como tudo custa. As eleições servem para que os cidadãos definam os seus representantes, as pessoas que farão decisões que impactarão as vidas de todos nós. Elas são a mais direta demonstração do poder popular. Esta é a forma pela qual o nosso sistema funciona, considerar isto um custo é não valorizar a liberdade que temos. Volto a repetir, este sistema podia ser melhor, devia ser mais democrático do que é, mas isso não significa que o atiremos para o canto e esperemos por um autocrata que venha cuidar de nós. Significa que somos nós que nos devemos interessar e construir para a sua melhoria.
Sobre o «problema» do financiamento seja fácil argumentar que os partidos devessem juntar o seu próprio financiamento, em vez de terem direito a subvenções públicas. Que se note que existe essa possibilidade, mas está fortemente regulamentada. Pois bem, veja-se o caso dos Estados Unidos em que esse financiamento é do encargo dos candidatos, perguntemo-nos se o que queremos é a possibilidade das elites económicas escolherem quem tem meios para passar a sua mensagem [2][3].
Esta retórica está em linha com aquela neoliberal e, portanto, fica-se com a sensação que há quem queira privatizar até as eleições. Isto não é descabido, tendo em conta a forma como encaramos a ciência, o modo como nos sentidos sem chão e o jogo de poderes que existe, o discurso tecnocrático sai quase como que algo natural. Só que não o é e, na verdade, não é mais do que o desejo de consumar o sonho capitalista de explicitamente tornar a nossa democracia numa oligarquia explícita.
Para sermos funâmbulos à beira do abismo, antes fossemos nietzschianos.
[3] https://theintercept.com/2024/08/24/dnc-aipac-squad-cori-bush-summer-lee/