Depois começava o artigo a dizer: FINALMENTE, A FARSA FOI DESMONTADA!!!! E a seguir dizia o que queria dizer, sempre com letras garrafais. Mandaram-me ontem um post que era assim (isto tudo em CAPS LOCK, mas poupo-vos a isso e aos erros ortográficos propositados): O Doutor Jéllyson (emoji bandeira EUA) descobriu que o novo coronavírus evoluiu naturalmente, sem ser feito em laboratório (emoji pânico), aparentemente o avanço da população sobre a vida selvagem (emoji de morcego), má higiene (emoji náuseas) e evolução natural são responsáveis pelo novo vírus!!!
São as falsas notícias falsas. Ou seja, notícias verdadeiras, mas a fingir que são falsas, porque assim chamam a atenção, são sensacionalistas e passam a mensagem. É de génio. Tenho a grande tentação de fazer o exercício com temas da política regional, com títulos como: EU ESTOU PERPLEXA COM ISSO!!! OS NOSSOS PROFESSORES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA!!! sobre o facto de os Açores serem a única zona do país em que os professores trabalham mais de 10 anos sem nunca passarem a efetivos. Ou COM O MEU DINHEIRO NÃO!!! O QUE A INDÚSTRIA DA SAÚDE NÃO QUER QUE VOCÊ SAIBA… sobre o facto de um hospital privado na região ter tido financiamento dos nossos impostos e de ter contratado médicos que trabalhavam no hospital público. Ou ainda QUANDO É QUE ESSA FARSA ACABA??? REPASSE PARA SEUS AMIGOS E JUNTOS VAMOS BAIXAR AS EXPETATIVAS!!!, sobre o facto de o vice-presidente andar a prometer vacinas vindas de fora da UE, sem apresentar garantias nenhumas acerca delas ou de sequer as vir a conseguir.
O pior é que nada disto é caso para rir… e se faço este exercício é mesmo porque penso que é útil desmontar os discursos, desmontar as formas de comunicar, desmontar aquilo que tantas vezes aceitamos ou ouvimos sem sequer parar para pensar. É preciso, de facto, dar volta ao texto. O que me leva a um outro projeto, chamado #DARAVOLTAAOTEXTO, de que tive conhecimento hoje. Tratou-se de se pegar em frases feitas e, acrescentando algumas palavras, fazer-nos pensar sobre elas. Assim, à frase “FAZIAM BEM ERA SE FOSSEM TRABALHAR”, acrescenta-se “COM ORDENADOS DIGNOS”. E num velho favorito dos comentários das redes sociais: “VAI MAS É PARA A TUA TERRA”, junta-se: “AQUI NÃO HÁ LUGAR PARA RACISMO”. Também gostei muito desta: “SE TEM ALGUM JEITO, UMA PESSOA SER...”, e onde poderia vir tanta coisa que facilmente virá à mente de quem me lê, acrescentar simplesmente “AQUILO QUE É”.
É verdade que dizer certas coisas pode não querer dizer que se pensam essas coisas, ou que se faça alguma coisa nesse sentido. É verdade que o discurso não é tudo e que o politicamente correto pode esconder certas realidades (políticas e não só) muito incorretas. Mas quando chegamos ao ponto em que certas coisas já não são só sussurradas, mas ditas, propagadas, e com letras garrafais… sendo mentiras ou preconceitos extremamente prejudiciais… é sinal de que há muita coisa que tem de ser mudada. Começando logo pela forma como falamos ou escrevemos sobre isso.