Eu defendo os direitos humanos, mas

Bem sei que é um assunto que passou de moda, como tudo, ao fim de dois dias, já é História. Como durante a campanha não pude usar esta via, faço-o agora para comentar (os comentários) sobre a Global Sumud Flotilla.

São muitas as críticas que foram avançadas de forma a atacar a flotilha. Gostava de olhar com um pouco de atenção sobre cada uma delas, para tentar perceber, de facto, do que se trata. Que se note que a crítica é sempre bem-vinda, no sentido de um exercício para perceber os limites de algo, tendo em vista a sua melhoria. Para ser útil, é preciso que a crítica seja estruturada, informada e honesta intelectualmente. Vamos a isso!

A maior objeção quanto à flotilha é ser um veículo de vaidades. As pessoas que seguem naqueles barcos não têm como propósito principal chegar a Gaza e levar ajuda, só querem chamar a atenção. Estão lá para ter ganhos pessoais e políticos. Primeiro, tenhamos em conta a forma como a própria flotilha se apresenta: «é uma coligação internacional de organizações da sociedade civil, movimentos populares e indivíduos empenhados em acabar com o cerco ilegal de Israel a Gaza através de mobilizações não-violentas» [tradução minha]. Julgo que esta crítica não coloca em causa a missão em si, por isso temos aqui duas questões: uma de âmbito filosófico e outra de âmbito histórico, sobre as pessoas específicas desta missão. Por um lado, perguntamo-nos: um ato altruísta perde o seu valor por ser reconhecido? É disso que aqui falamos, de pessoas que arriscam a sua integridade física por uma causa nobre e estão a ser faladas por isso. Pergunto-me: em Portugal são muitas as entidades locais e nacionais, IPSSs e associações, de índole cristão que trabalham junto das populações para ajudar em situações de vulnerabilidade social, o facto de sabermos quem as integra leva-nos a questionar o seu altruísmo? Bem sei que aqui podemos dizer que a atenção é muito maior. O perigo é maior. E, mais importante, as pessoas envolvidas são figuras públicas. A comunicação social adora histórias com figuras públicas. A flotilha sabe-o, por isso é que foi assim organizada. Muitas foram as flotilhas com anónimos que partiram desde 2008, mas que só agora sabemos, porque a comunicação social ignorou. Para aumentar a possibilidade de chegar a Gaza era preciso os holofotes mundiais. Neste ponto, colocamos a questão particular: como lidaram estas pessoas com esse foco? Só vieram a público falar da sua vida a bordo para desconstruir desinformação. Nenhum dos participantes fez da sua participação o foco. E pensamos, o que ganham estas pessoas? Segundo penso, a recompensa individual destas pessoas é o orgulho dos seus descendentes pela sua coragem.

E isso é do ponto de vista de quem fica no sofá. Quem toma uma abordagem cínica de afirmar que se sabia que nunca chegariam a Gaza ignora dois aspetos. O primeiro: esta é a maior flotilha humanitária da História, quase 50 embarcações com quase 500 pessoas. O segundo: normalizam o problema que justifica a viagem: a repressão ilegal de Israel através do seu bloqueio em Gaza, inclusive a ajuda humanitária. Até o nosso governo chamou estes ativistas de irresponsáveis, quando foram raptados em águas internacionais. Irresponsável é achar que um governo pode cometer um genocídio de forma impune.

Ainda há quem critique que a ajuda humanitária seria simbólica. Esta flotilha pretendia abrir um corredor humanitário, para que a ajuda de facto pudesse chegar a Gaza.

«Eu defendo os direitos humanos, mas» há limites nas palas que nos pomos.