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A Europa está a ficar Grega

 

A Senhora Merkel vai sair mal da tragédia que provocou (…). E urge mudar. Porque se não o colapso europeu será tão amplo como o da velha União Soviética…

(Mário Soares)

 

Quando se estica uma corda, normalmente rebenta pelo ponto mais fraco. Porém, neste caso, penso que não se trata duma corda, mas sim dum barco. Ora, um barco com um rombo, quando vai ao fundo, leva fracos e fortes indiscriminadamente. Portanto, a ameaça deAlexis Tsipras não é tão ridícula quanto parece, quando alerta que o pagamento da dívida está dependente do apoio à Grécia. É que a coligação de esquerda Syriza, ao contrário do que fez o governo PSD/CDS, pagará, em primeiro lugar, aos trabalhadores gregos e, só, depois aos agiotas.

Sinal do desnorte generalizado dos atónitos economistas de pacotilha é a proliferação de opiniões contraditórias que vão desde o “sai já” até ao “não pode sair”.

Os especuladores financeiros dizem: “sai já” porque preferem perder a dívida grega, desde que não seja posta em causa a sua agiotagem, o que representa um sinal de fraqueza da sua política. Os economistas conscientes e industriais europeus dizem: “não pode sair”, porque têm noção do desastre económico patrocinado pelo efeito dominó daí resultante.

Os bancos franceses detêm 50.000 milhões de euros de dívida direta grega e mais 30.000 milhões de dívidas indiretas. Um rombo destes baixaria o “rating” da França para um nível insuportável pelos “tais” mercados.

Itália e Espanha têm, também, avultada participação em dívidas externas. A situação da banca espanhola está à beira do desastre, o que quer dizer que, cumprindo-se a ameaça, seria classificada abaixo de lixo, arrastando a Itália consigo.

Esta situação arrastaria, também, e inevitavelmente, Portugal e Irlanda.Por sua vez, tudo isto está “pendurado” nos bancos alemães. Não é necessário um tratado de economia para imaginar o que isto representa em termos financeiros, bem como os seus reflexos na economia dos países europeus.
Podem asfixiar o povo grego, desrespeitando a sua vontade democraticamente expressa, em mais uma tentativa de protelar esta política ruinosa, mas a situação é tão abrangente que tende a repetir-se com maior frequência e forma mais profunda, não só na Grécia, mas por todos os países europeus, incluindo a própria Alemanha.

A Grécia é o berço da democracia. A História não se repete, mas tem ciclos e estamos, seguramente, num momento de rutura com a política desastrosa que a direita tem imposto na Europa. Os resultados obtidos pela esquerda grega é um sinal da reviravolta que está latente. Os resultados de eleições regionais na própria Alemanha têm-no demonstrado.

A França é o símbolo, por excelência, dos ideais republicanos em todo o Mundo.A coincidência destes resultados, na Grécia e em França, a par da previsível derrota de Merkel em 2013, constitui um fator histórico determinante da mudança de rumo que se adivinha.

A ganância ilimitada esbarrou com um limite. O capitalismo cavou a sua própria sepultura. Todas as manobras que a especulação financeira engendre, apenas prolongam a agonia deste sistema que já está ligado às máquinas. É a oportunidade de rutura com este sistema caduco e repressivo.