Não consigo de todo.
Escrevo este artigo a uma hora horrível, antecipando uma noite de sono do tamanho de uma sesta. Pergunto-me como cheguei até aqui. Como é possível gerir tão mal o tempo? Ou são demasiados compromissos? Ou a minha eficiência é muito reduzida?
Como é possível estabelecer prioridades? É por aquilo que causa mais impacto? É pela anterioridade cronológica? É pela expectativa social? É bem-estar próprio futuro? E será possível falar em bem-estar presente sem ser um bem-estar hipotecado?
São muitas as questões, é um terreno fértil o da autocomiseração.
Percebo que o cansaço que me consome não é um fenómeno estritamente individual ou uma falha de planeamento pessoal na agenda do quotidiano. A exaustão contemporânea tornou-se uma espécie de sintoma coletivo, uma marca de uma sociedade que confunde a hiperatividade com a virtude e a ocupação constante com a relevância cívica. Vivemos mergulhados na ilusão de que a nossa capacidade de intenção e intervenção no mundo se mede pelo número de frentes que conseguimos manter abertas, esquecendo que o ativismo desprovido de tempo para a reflexão se reduz a uma agitação estéril. Exige-se de nós uma disponibilidade absoluta, uma prontidão digital e burocrática que asfixia a quietude necessária ao pensamento crítico. Quando a nossa energia é inteiramente absorvida pela engrenagem da sobrevivência funcional — seja na academia, no trabalho,… —, o que sobra para a verdadeira práxis? Sobra este vazio, esta sensação de estarmos a correr numa passadeira rolante que se move mais depressa do que as nossas pernas. Esta pressa institucionalizada afasta-nos do outro e de nós próprios. Transforma a cidadania, que deveria ser um exercício orgânico e participado de cocriação comunitária, numa lista interminável de tarefas a cumprir e prazos a esgotar.
O filósofo Byung-Chul Han tem alertado exaustivamente para os perigos desta "sociedade do cansaço", onde o indivíduo moderno, julgando-se emancipado, se autoexplora até ao limite das suas forças em nome de um ideal abstrato de produtividade. Convertemo-nos nos nossos próprios carrascos administrativos, vigiando cada minuto desperdiçado e punindo-nos silenciosamente com a culpa de não termos feito mais. Ora, uma comunidade habitada por cidadãos cronicamente fatigados é uma comunidade politicamente vulnerável, anestesiada na sua capacidade de indignação e facilmente moldável pelas narrativas do imobilismo. A apatia democrática que tantas vezes lamentamos nas páginas dos jornais nasce precisamente aqui: no esgotamento físico e mental que impede a contestação estruturada e o debate dialético aprofundado. Para intervir criticamente na polis, para questionar os modelos de governação cristalizados ou para propor alternativas viáveis de proximidade, é indispensável possuir uma reserva de lucidez e de vigor. Sem esse espaço de respiração axiológica, a nossa ação limita-se a reagir à espuma dos dias, ao soundbite e ao comentário rápido nas redes sociais, mimetizando a própria pressa que nos adoece. É preciso, por isso, resgatar o direito à lentidão e à recusa construtiva, entendendo que estabelecer limites não é um ato de egoísmo ou de deserção cívica, mas sim uma pré-condição existencial para que a nossa voz continue a ter um impacto autêntico, ético e transformador no ecossistema vivo que partilhamos.
Nada melhor para este status quo do que quem pretende mudá-lo estar completamente drenado de energia. Faça-se número, faça-se multidão. Poucos não somos.