A experiência do mundo

Ver as notícias é sempre uma oportunidade para exercitar as virtudes. Abrir a secção dos comentários, ainda mais. À medida que se se avolumam as notícias ao longo do tempo, torna-se cada vez mais difícil justificar a resistência a abordagens mais estruturadas de transformar o mundo. O paradoxo da experiência grita nas suas duas versões: querem-se jovens na política, mas não são eleitos, porque não têm experiência; querem-se políticas diferentes, mas vota-se nos mesmos, os outros não têm experiência governativa. É claro que recentemente parece que temos uma exceção, mas ela só vinca ainda mais este duplo paradoxo.

A quebra do bipartidarismo é levada a cabo por uma força reacionária, que nasce na espuma dos dias e nela flutua, sendo personificada por pessoas que vinham de partidos do arco governativo. Esta "novidade" é, no fundo, um sintoma de um esgotamento mais profundo: a incapacidade de distinguir a experiência enquanto sabedoria acumulada da experiência enquanto mera permanência nos corredores do poder.

O que hoje chamamos de "experiência" na vida pública assemelha-se perigosamente a um vício de forma. Confunde-se o conhecimento dos mecanismos burocráticos e o domínio do jogo das influências com a capacidade de ler o tempo presente. Ora, a verdadeira experiência do mundo, aquela que deveria nortear a polis, não é a que se adquire por repetição, mas a que resulta do confronto crítico com a realidade. Hannah Arendt lembrava-nos que a política é o lugar do "novo início". Se fechamos a porta a esse início em nome de uma mística da continuidade, estamos a condenar a democracia à entropia.

O paradoxo que envolve a juventude é particularmente cruel. Exige-se-lhe o vigor da mudança, mas castra-se-lhe a ação com o argumento da imaturidade. No entanto, o que vemos nos setores "experientes" é muitas vezes uma imaturidade ética vestida de pragmatismo. A força reacionária que agora emerge aproveita-se precisamente deste vácuo. Ela não oferece experiência, mas sim o simulacro da rutura, servindo-se de figuras que, tendo habitado o sistema, aprenderam a mimetizar o descontentamento popular para proveito próprio. É uma rebeldia de gabinete, que utiliza o comentário rápido, o ódio fácil das redes sociais, o soundbite para evitar qualquer discussão estruturada.

A verdadeira experiência exige silêncio e disponibilidade mental, ouvir e refletir, elementos que a nossa hiperatividade algorítmica destruiu. Se não formos capazes de valorizar uma política que se fundamente no pensamento e não apenas na gestão da imagem, continuaremos prisioneiros deste círculo vicioso. Mais, se nos mantemos ignorantes sobre o funcionamento das instituições, estamos condenados a dar passos em falso. Saber como funciona um sistema eleitoral ou como consultar o Diário da República pode não ser propriamente um passatempo preferido, mas são competências importantes para uma democracia que se pratica no quotidiano. Na prática, não nos deixarmos enganar, principalmente por nós próprios, pela nossa ilusão de conhecimento.

E lembremo-nos das palavras de Jacques Rancière: «a racionalidade da política é a de um mundo comum instituído, tornado comum, pela própria divisão […] O dissenso não é um conflito de opiniões nem mesmo um conflito pelo reconhecimento, mas um conflito sobre a constituição mesma do mundo comum.» Não vamos concordar sempre, mas temos de ser capazes de acordar.