É bastante comum ouvir falar sobre a experiência. A experiência profissional, a experiência de vida, a experiência como estatuto de autoridade. Resta saber o que é essa experiência. Deixo já aqui a conclusão a que quero chegar: a experiência são experiências.
Fala-se de experiência da vida como aquela que permite dar lições. Alguém que viveu o suficiente para ser levado a sério, como uma autoridade. A experiência confunde-se, então, com a vida, e mesmo com o trabalho. Há uma espécie de ascetismo popular que é automático pelo passar do tempo. A imagem do ancião. Procuramo-lo para orientar a nossa vida, desde conselhos sobre decisões a tomar, até à melhor altura para semear batatas.
No nosso quotidiano, pelo menos para um jovem em busca de trabalho, a “experiência” aparece mais frequentemente ligada a uma expectativa da entidade empregadora, no sentido de recorrer ao trabalho de alguém já com garantia de qualidade.
Nestes casos fica evidente o óbvio: a experiência é um atributo positivo, algo a honrar e privilegiar.
Mas como pode esta concepção sobreviver a tantas contradições? Vejamos algumas.
Se é uma honra a experiência de uma vida, porque é que os nossos idosos são marginalizados pela sociedade, vistos muitas vezes como inúteis? Como é que as empresas querem contratar jovens com formação, mas exige terem experiência, quando estão na altura do primeiro emprego? Vamos adiante. Qual a autoridade de um ancião pescador em relação à agricultura? Porque vemos com maus olhos que um filho de político seja político, mas com naturalidade que o filho de sapateiro seja sapateiro? Como conjugamos a experiência com as mudanças tecnologias, pode um agricultor de 40 anos ser mais experiente nas metodologias que um ancião? Porque a cultura popular valoriza a experiência manual e despreza o que entende como teórico? Talvez a maior, como podemos usar a experiência como justificar para impedir que se outro ganhe experiência?
Aquilo que me parece ficar desde logo evidente nestas provocações é o que adiante logo no início: não podemos falar de experiência sem experiências.
A experiência não pode ser vista como algo linear e único. É o conjunto dos casos, das vezes. Alguém experiente em trabalhar cerâmica é quem já o fez várias vezes, incluindo as que levantaram problemas que precisaram de ser resolvidos. Termos feito bem uma peça não garante que amanhã a façamos igualmente bem, já se hoje resolvemos uma falha no processo, amanhã somos capazes de a resolver de novo e é esse o conhecimento que comumente associamos à experiência. Se hoje tanto se valoriza a interdisciplinaridade é justamente por se reconhecer que as experiências de outros meios podem ajudar a resolver problemas que os experientes dos seus meios podem ter dificuldades.
Vejo a experiência como um reportório, um tesouro de experiências. É dessa diversidade de experiências que surge a experiência. A experiência, então, é um alargar horizontes, é o acumular de saberes e técnicas sem a necessidade de um fio condutor. Não é algo que se resuma num CV, não é algo que outro além de mim saiba aquela que tenho - muitas vezes fica como que como conhecimento latente. Mais do que um exercício passado, é a predisposição no presente de viver.
A maior implicação está na idade: a experiência não é em função da idade, mas uma natural correlação - afinal, quem tem mais anos, teve mais possibilidades de viver. Um jovem pode ter mais experiência que um ancião. Esta soará a mais uma provocação, contudo, é necessária: temo-nos agarrado à experiência numa lógica de estabilidade, sem perceber que ela significa inovação e progresso.