Faial: ouvir a terra

Este Natal foi diferente para a minha família: passámo-lo no Faial com os meus avós – em vez de virem a Santa Maria. Foi uma boa quadra festiva. Não é, contudo, um retrato biográfico em torna de uma consoada que quero aqui trazer. Antes, permitam-me discorrer sobre alguns pensamentos que fui tendo enquanto percorria as estradas faialenses.
Terminei o ano com um tom que pode parecer algo negativo ou pessimista – falar em «crítica» dá nisso. Nada mais longe da verdade, a missão de um espírito crítico é identificar as frechas ou abri-las até em lugares de maior fragilidade, de forma a poder construir um edifício que seja seguro. Por isso é que nós temos a conceção do progresso como algo contínuo, porque nunca está acabado. O que temos de refrear é a nossa visão do progresso como algo linear: estamos certamente num dos melhores momentos em que a humanidade viveu até agora em termos de conforto, mas, além desta ser uma realidade estatística, não pode ser dada por garantida. A crítica faz-nos refazer, melhorar. Bem sei que muitas vezes me perco em aspeto abstratos, quer seja pela dimensão teórica sobressair, ou por serem assuntos que não contactamos diretamente, hoje é dia de concretizar.
Nos passeios que fiz, o que mais me ocorreu foi «memória» - estava para aí virado por algum motivo. Em locais com presença humana a sua História faz-se por duas vias: a natural e a humana/cultural. Nos Açores é evidente, em qualquer ilha, que essas duas Histórias são uma. O nosso tesouro de memórias é imenso, nos seus sentidos mais latos possíveis.
Não obstante, as ruas da cidade da Horta parecem querer que a memória seja um segredo. Não é dado particular destaque a edifícios e, mesmo aquele que existe, não é concretizado num conjunto de informações. Claro que podemos ser nós a fazer a pesquisa, mas não são essas informações por si o essencial. É a concretização da memória no local, é a relevância histórica (relevância no seu sentido mais geográfico/cartográfico de relevo). É a importância que damos à memória o que lhe dá vida – é intuitivamente esse o funcionamento face ao esquecimento.
De facto, faça-se a nota, no que concerne a informações resumidas o sítio do turismo funciona quase perfeitamente (https://www.discoverfaial.com/cidade-da-horta/) – e ele parece-me bem feito. Talvez a maior ausência seja a do folclore, dos aspetos etnográficos, musicais e mesmo místicos, como lendas. Este último aspeto é particularmente importante, uma vez que estas histórias refletem o pensar e sentir que nos é anterior, e parece-me ser o aspeto menos valorizado nos esforços culturais. É pena, a própria produção cultural contemporânea poderia inspirar-se.
Há uma História mais, aquela que entrelaça o natural e o humano: a atividade sísmica. Só na memória de quem está vivo, habitam dois grandes sismos, sendo que foram uma constante desde o povoamento. Estes momentos resultaram em esforços resilientes e fraternos.
A Igreja de São Mateus, cujo edifício está em ruínas pela ação do sismo de 1998, é um excelente exemplo de um local onde se podiam preservar os vestígios e construir integradamente um centro de interpretação – reforçar as ruínas e criar um edifício que as permita ver do interior (mantendo a fachada exterior). Seria a forma de preservar os estragos que estes fenómenos deixam e mostrar aquilo que ao longo da História foi sendo superado diversas vezes. Há uma enorme potência nesta simbologia.
Também me deixa uma enorme pena que igrejas reconstruídas se encontrem fechadas, para evitar furtos, ao invés de se adotar um sistema de segurança – muitos destes espaços têm uma grande força arquitetónica e revelam o caráter renovador da reconstrução.
Memória não é mera conservação, até porque é dinâmica e deve ser inovadora, mas é sempre cultura.