Será que as coisas são óbvias? Nós, enquanto seres que atribuem significados, complicamos a realidade? Parece haver, por vezes, uma tensão entre o sentido comum e as correntes filosóficas. A mobilização de jargão erudito para descrever a realidade versus as expressões idiomáticas. A descrição das aparências versus o rigor das palavras. A ciência aparece como uma metodologia de chegar perto da verdade (as ciências naturais e exatas parecem-nos exemplo de grande sucesso). Talvez um dos encantos da ciência seja, de vez em quanto, mostrar que o nosso sentido comum nos induz em erro. Sentimo-nos desafiadoramente atacados, como quando percecionamos ilusões de ótica. Que se note que muitas vezes o sentido comum é munido de slogans contraditórios de forma a podermos aplicar conformo nos dá mais jeito. Aquilo que gostava de fazer aqui hoje era justamente tentar provocar aquilo que a aparência no diz sobre a felicidade.
Antes de avançar, na semana passada discutiu-se em contexto de aula a escola cética (fim da Grécia Clássica), que, por acidente, descobriu a tranquilidade como aquilo que nos dá prazer. Já Aristóteles colocava na felicidade aquela que é a finalidade da ação humana (através de uma ética pautada pela moderação). Estas noções de não perturbação e de «no meio é que está a virtude» são perspetivas muito típicas naquela geografia e época. Achei, contudo, curioso o apontamento que o professor fez: a agitação, em detrimento da tranquilidade, é algo que, aos nossos olhos, até tem algum benefício. Com esta observação em mente fiquei a refletir.
O resultado parte de um velho ditado do sentido comum: só quando se perde algo, se dá por falta dela. O meu ponto é que esta frase que nos é tão óbvia em certos casos, se aplica não só pelo valor que damos a algo, mas também a forma como vemos o algo, partindo da nossa mente. A nossa felicidade depende de sabermos que existe infelicidade (e termos, pelo menos, contactado minimamente com ela). Então, é preciso afirmar a infelicidade para se, separando o trigo do joio, perceber onde está a felicidade, valorizando-a. Desta forma, aquilo que percebemos é que a constatação da infelicidade é crucial na busca da felicidade. Essa constatação é, aliás, uma espécie de método.
Seguindo esta raciocínio, é totalmente possível a pessoa mais feliz do mundo ser, ao mesmo tempo, aquela que mais reclama. Penso ser este o ponto mais engraçado e que me levou a fazer aquele primeiro parágrafo tortuoso. Se a pessoa sabe que existe infelicidade, mas em si só constata felicidade, então é feliz. Alguém privilegiado, no sentido de não ter qualquer necessidade por satisfazer, mas não entenda que poderia acontecer o contrário, dificilmente será alguém feliz. Esta questão de privilégio é importante e devia esmiuçá-la um pouco mais, não obstante, penso que o principal passou.
Recuperando o raciocínio, é também possível que quem mais reclame seja a pessoa mais otimista do mundo. Quando alguém identifica que algo está mal tem duas visões: ou o problema vai existir sempre ou é resolvível. Ora, se a pessoa adotar esta segunda visão, temos que para se ser otimista é necessário considerar que para qualquer problema, existe uma solução, se o problema não tivesse sio identificado, nem haveria essa discussão.
Convém, claro, esclarecer o que quero dizer com reclamar: constatar que algo está mal com humildade intelectual. Esta segunda parte é crucial, uma vez que os dogmas funcionam como palas. Vamos abraçar a felicidade da dialética e fechar os comentários ressabiados das redes sociais.