A festa da vida

Hoje apercebi-me da profunda dimensão de uma música dos anos oitenta do nosso cancioneiro português, pelo que gostava de a explorar aqui. Não obstante, aproveitando o início deste ano, parece-me apropriado abrir a narrativa e tomar uma posição mais ampla.

Desde o início dos tempos que cada um de nós procura a felicidade. Esse conceito de eudaimonia ocupou páginas e páginas de pensadores ao longo do tempo, além de estimular as nossas ciências sociais e humanas. Dentro deste último ponto, a título de exemplo, a pirâmide de Maslow constitui uma hierarquia de necessidades que, em última instância, nos leva à felicidade [1].  Até posso aqui enunciar as etapas, de baixo para cima, que vão sendo passadas: fisiologia (como alimentação), segurança (como habitação), afeto, estima e realização pessoal. Julgo que muitos de nós percebemos o quanto somos privilegiados, quando confrontados com esta lista de necessidades.

A nossa vida é, então, marcada pela busca da supressão de necessidades e é nisso que a política se deve enquadrar, sempre num ponto de vista consequente e integrado. Em qualquer altura este desafio é difícil, mas nestes dias tenho pensado particularmente na terceira idade. Felizmente, cada vez vivemos mais tempo, tal como, e em parte por isso, temos uma população mais envelhecida (olhando para os Açores e, particularmente, Santa Maria). Estas realidades levam a que tenha de haver uma aposta em respostas ao nível da saúde, segurança social, criação/ampliação de lares,… Há um grande problema de isolamento que trás invisibilidade e, como tal, uma qualidade de vida deficitária. Infelizmente, atualmente, a posição do governo regional é de preferir um apoio ao domicilio sem dar os meios para isso, fazendo com que entidades como a Santa Casa não consigam aumentar a sua capacidade para fazer face às listas de espera de pessoas idosas altamente dependentes (por não disponibilizarem financiamento para esse investimento). Pessoas que trabalharam toda uma vida e que chegam ao fim numa posição precária.

Na verdade, foi por pensar nestes assuntos que captei numa nova interpretação o «Vinho do Porto», música de Carlos Paião e Cândida Flor que nos representou na Eurovisão de 1983 [2]. Nesta obra musical temos duas partes melódicas: a primeira, que se arrasta, cheia de repetições; e uma segunda, alegre, cheia de vida. A própria letra é sensível a essa mudança com a primeira associada à produção do vinho e a segunda ao seu usufruto. Não é o vinho a alegria, antes a festa onde está, esse ambiente onde somos todos irmãos. Faz lembrar uma música que o leitor com mais interesse no Festival da Canção podia ter adivinhado pelo título [3]. Voltando ao «Vinho do Porto», esta componente do labor não tem necessariamente de ser vito como um constituinte negativo da vida, antes como uma mecânica que precisamos para a comunidade viver na sua «festa», na sua realização. Um leitor mais pessimista talvez diga que, na verdade, a música reflete a vida: um início de trabalho e uma reforma de festa – infelizmente, na realidade, esta última parte está muito longe da verdade.

Aquilo que me apraz é justamente salientar este dar e receber, o trabalho para a comunidade e o saciamento das nossas necessidades, ambos contribuindo para a felicidade. Que 2024 traga muita felicidade!

[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Hierarquia_de_necessidades_de_Maslow

[2] https://www.youtube.com/watch?v=X1jsclRxrWw&ab_channel=FestivaisdaCan%C3%A7%C3%A3o

[3] https://www.youtube.com/watch?v=vJPZ5mc0Eis&ab_channel=RTP