É exasperante escrever estas palavras. Há uns anos a atualidade apontava naturalmente para temas a comentar semanalmente, hoje sinto-me assoberbado por a cada dia termos tanta coisa que devia ser destacada. A quantidade do que antes seria considerado um escândalo acontece numa velocidade vertiginosa, já faz parte do nosso quotidiano. O que antes seria entendido como necessitando de responsabilidade, hoje é só mais um facto. Isto vale para o nosso país, a nossa região e o nosso mundo.
É como se tivéssemos perdido a capacidade de nos indignarmos. Não porque as razões se esgotaram, mas porque se tornaram tantas e tão recorrentes que o cansaço se sobrepôs ao dever de reagir. A normalização do absurdo transformou-se no novo normal, e, com isso, cada um encontra desculpas para se alhear. As manchetes já não despertam consciências, mas reforçam trincheiras de opinião, enquanto o espaço público se confunde com arena de insultos e silêncios cúmplices. O mais inquietante é que esta anestesia coletiva não resulta apenas da velocidade dos acontecimentos, mas também de uma erosão da confiança - nas instituições, nos representantes, nos valores que antes pareciam firmes. O perigo é claro: quando a exceção vira regra e o desvio parece inevitável, deixamos de exigir melhor e conformamo-nos com o mínimo.
Essa resignação é talvez o maior triunfo de quem prefere o poder à responsabilidade. Um povo cansado, que aceita a mediocridade como inevitável, é facilmente governado. Não porque confie em quem o dirige, mas porque já não acredita que a mudança seja possível. Esta descrença, cultivada dia após dia, instala-se como erva daninha em cada conversa de café, em cada comentário resignado de “é sempre a mesma coisa”, até se tornar paisagem.
É aqui que reside a perversidade: quando se abdica da exigência, a democracia transforma-se em ritual sem substância. Vamos às urnas, mas sem convicção; discutimos política, mas sem esperança; indignamo-nos, mas apenas no espaço seguro das redes sociais, onde tudo se esgota em segundos. A velocidade do ciclo noticioso - e a nossa aceitação dele - converteu a cidadania numa coreografia repetitiva, em que fingimos participar enquanto, na prática, nos retiramos.
Contudo, a responsabilidade não é apenas dos que decidem em nosso nome. Também é nossa, na medida em que nos deixamos paralisar. É cómodo acreditar que os problemas são sempre “lá de cima” ou “lá de fora”, como se não tivéssemos papel a desempenhar. Mas a história mostra que as maiores mudanças nascem quando a sociedade deixa de aceitar a normalidade do inaceitável. O que falta não são motivos para agir - são vontades que rompam a inércia. A questão não é se o mundo está pior do que antes. É se nós, perante este mundo, decidimos ser espectadores passivos ou protagonistas imperfeitos. Porque a indiferença não é neutra: é sempre uma escolha, geralmente a mais cómoda para os que preferem que nada mude.
Participar politicamente não é apenas votar de quatro em quatro anos, nem repetir lugares-comuns em jantares de família. É assumir que cada gesto conta para moldar a comunidade. A política não é palco distante ocupado por “eles”; é reflexo das nossas escolhas e omissões. Se quisermos quebrar o ciclo da indiferença, teremos de reencontrar a coragem de exigir, propor e construir. Porque desistir não é opção: quando a cidadania se retrai, o espaço é ocupado por quem não hesita em transformar o poder em privilégio.