A fogueira

Esta semana fica marcada pela eleição de Donald Trump como presidente dos EUA (as cheias em Valência e a greve no INEM não devem, claro, ser esquecidas, falo numa dimensão global). Tratou-se do nosso fim da inocência: volvidos 79 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, parece que nos voltámos a esquecer da perversidade de que somos capazes – digo isto algo dramaticamente, afinal, infelizmente o que não faltam são «fins da inocência» nestas últimas décadas, ainda muito recentemente podemos olhar para o genocídio em Gaza, a particularidade com Trump é estarmos a falar de um indivíduo que pela segunda vez ocupará um dos cargos mais importantes do mundo, mesmo depois da sua responsabilidade no ataque ao Capitólio e de ser considerado culpado de vários crimes.
Permitam-me aqui descrever parte da minha tarde de terça-feira – curiosamente o dia das eleições estadunidenses. O meu propósito para o início da tarde era simples: ir à loja CTT levantar o subsídio social de mobilidade enquanto estudante deslocado. Estando há quatro anos a estudar no Porto, não me é estranha esta prática, não havendo dificuldades de maior com a burocracia exceto em casos mais estranhos. Desta vez estava descansado, tinha as informações todas direitas, tal como várias das outras vezes. Acontece que chegado ao local vejo o meu pedido recusado: aquela viagem como foi paga por uma pessoa coletiva, tinha de ter uma declaração da agência de viagens em como tinha sido paga por essa entidade, mas fui eu o viajante. Fiz notar que a fatura da agência já possui essas informações, mas sem sucesso. Irritado, até porque o funcionário deixou implícito que eu estaria a tentar cometer fraude, afastei-me. Como estava a chover, fui ao site dos CTT, já que me lembrava de ter lido lá o procedimento sobre estes casos. Constatei que a informação era que sendo a viagem paga por entidade coletiva, devia a fatura vir nesse nome e nas informações constar o nome e NIF do passageiro – o que efetivamente tinha. Tirei nova senha. Desta vez foi a gerente a dizer-me que era preciso a declaração, que havia uma circular interna. Fiz notar que a declaração seria redundante quer em conteúdo, quer em legitimidade, mas nada feito. Continuava a chover, pus-me a ler a legislação: afirmava o mesmo que o site. Siga nova senha. Mostrei a esta terceira funcionária o decreto-lei, mas a gerente, que desta vez nem apareceu, permaneceu inabalável. Deram-me um guião para a declaração: além do texto não corresponder ao que me foi pedido, dele consta a justificação da viagem, o que é legalmente irrelevante – uma violação da privacidade, portanto. Fiz a minha única queixa num livro de reclamações.
O que mais me revoltou nestes acontecimentos não foi o tempo que perdi, não foi o excesso de burocracia, não foi a irrazoabilidade generalizada ou mesmo terem implicado que podia estar a cometer uma fraude: o que mais me afetou foi eu ter consciência de que concordo com o procedimento. A burocracia prevista em lei parece-me adequada e necessária – mínima, por outras palavras, o que não significa que tenha uma visão crítica, como achar que o processo devia ser mais automatizado. Eu concordo com o procedimento da forma como está previsto. E, por isso, quando chego aos CTT e levo com estes baldes de água fria, sinto-me órfão. Exagerando: eu estou do lado deles e eles excluem-me.
Ao dar por mim a pensar neste sentimento apercebo-me: esta frustração é lenha para a fogueira. É esta revolta que pode levar sensatos a serem insensatos nas urnas. A minha visão é estruturalmente diferente da sociedade em que vivemos, pelo que a vivência deste sentimento só se dá em situações muito concretas, não é de estranhar a demora em chegar a esta conclusão. É impressionante como este sistema nos cultiva o ódio - e o piromaníaco.