Foi bonita a festa, pá!

No passado dia 25 de abril celebrámos os 50 anos da nossa democracia, da liberdade como valor fundamental, sujo mote é o do seu aprofundamento. «Celebrámos», como quem diz, a multidão gigantesca de portugueses que saíram à rua e muitos outros que gostariam de lá ter estado ou estiveram através das suas ideias. A verdade é que existe uma parte dos portugueses a quem o 25 de abril é indiferente, e outra em como foi um evento negativo [1] [2]. Haverá sempre um grupo de desalinhados, como em tudo (e ainda bem, porque nos relembram do nosso papel ativo, de como nada pode ser dado como garantido), mas quando mais de um milhão de portugueses confia o seu voto, a sua voz, num partido que abandona o parlamento mal se começa a cantar «Grândola Vila Morena», ficamos cientes que algo está mal. E não foram só os deputados do CH a abandonar o hemiciclo, como também os do CDS e uma minoria do PSD [3].

Sobre este episódio, julgo tratar-se claramente de uma tentativa de associar a música à esquerda, uma tentativa de polarizar a sociedade que, em última instância, polarizará sobre os valores de abril. Está-se a dar uma importação da guerra cultural que se vive no outro lado do Atlântico pela direita radical, sendo que a direita democrática é cúmplice, pelo medo da perda de eleitorado. «Grândola Vila Morena» foi uma senha do 25 de abril, tal como «E depois do adeus», tendo sido usada como a confirmação do início do processo revolução: esta cação de José Afonso representa o 25 de abril, não fações partidárias.

Outra forma de enfraquecer o 25 de abril advém da sua relativização, como a de Moedas a tentar associar a revolução à «moderação» [4]. Como a tentativa de ofuscar as comemorações do 25 de abril, através de uma discussão sobre o 25 de novembro [5], mais uma vez, com o propósito de importar uma guerra cultural. Nisto, fica a vergonha de ver a maior Câmara Municipal do país a não dar resposta a uma tradicional comemoração da Revolução dos Cravos [6].

O caminho deve ser o de aprofundamento de abril: não faz sentido a discussão sobre os seus valores, mas a discussão sobre a forma como os concretizar. A liberdade é o maior dos valores de abril, não me cabe na cabeça a possibilidade de a discutir (mas é isto que está a acontecer).

Um grande obstáculo às discussões são as incursões moralizantes, que pretendem fazer as discussões na base de regras sem um substrato teórico fundamentado. Não se discutem valores, mas contingências particulares, desmembrando a ação política. Muitas vezes, mais uma vez, são instrumento para a guerra cultural.

Saibamos celebrar abril, juntos. Apesar de parecer haver uma relutância em se publicarem números, desde 1974 que não se deve ter visto tanta gente nas ruas a celebrar abril [7]. Ninguém largará a mão de ninguém.

[1] https://democracia.iscsp.ulisboa.pt/resultados-do-inquerito-nacional/os-portugueses-e-a-democracia/atitudes-face-ao-25-de-abril-de-1974/o-25-de-abril-na-historia/o-25-de-abril-na-historia

[2] https://sondagens-ics-ul.iscte-iul.pt/wp-content/uploads/2024/04/Estudo-ICS_ISCTE_25A.pdf

[3] https://www.sapo.pt/noticias/atualidade/esquerda-canta-grandola-vila-morena-no-final-_662a63728b0345014f5fe17c

[4] https://twitter.com/Moedas/status/1782880958435283172

[5] https://cnnportugal.iol.pt/videos/nos-50-anos-do-25-de-abril-a-direita-trouxe-o-25-de-novembro-e-gerou-polemica/662be6b50cf2a41c2ed27ad5

[6] https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/iniciativa-arraial-dos-cravos-foi-cancelada-porque-camara-municipal-de-lisboa-recusou-financiamento/

[7] https://www.noticiasaominuto.com/pais/2548509/centenas-de-milhares-de-pessoas-desfilaram-em-lisboa-no-25-de-abril