Estou desde junho para escrever este artigo. Nem sei bem o que o tem adiado, se bem que o medo de não conseguir ser eloquente deve fazer a sua parte. Temos uma ideia na cabeça, com a nossa linguagem, e colocá-la no papel fá-la perder parte do seu sentido. Qualquer das formas, mais vale tentar.
Outro dia, em junho, dei comigo a pedir uma Francesinha pré-feita de um supermercado para comer pelas 22 apesar de já ter jantado. Já não me lembro o porquê, mas que me deu um desconsolo, deu. A grande questão seria se o desconsolo era satisfeito, se valeria a pena gastar dinheiro num «luxo» desse tipo. Bem, tal como já desvendei, foi. Fiquei consolado.
Mas por pouco tempo: quando acabei a ceia e encontrei a paz, o meu cérebro tornou-se uma planície fértil ao remorso, mas, mais do que isso, à análise de toda a ação. Achei curioso como a única barreira que se me punha era o dinheiro. Eu não me preocupei com a distância do supermercado, o horário, ou até a minha saúde: pensei tão e somente no dinheiro. Estas palavras soam vazias e fúteis, mas imaginemos que estava a falar de leite, de cereais, de fruta. Eu safei-me na lotaria social (na família, no local, na época em que nasci), mas quantos não podem dizer o mesmo? Em Portugal, em 2021, o limiar do risco de pobreza estava nos 6608€ (rendimento anual), sendo que 42,5% da população está abaixo desse indicador. [1]
Se uma pessoa privilegiada (mesmo não abastada) como eu tem como preocupação o preço de algo, como não se sente quem vive com a corda ao pescoço? Dinheiro é uma invenção humana que nos tolda e limita psicologicamente. Contrariamente ao que podemos pensar, quem menos tem, menos vota.[2] Quando a preocupação é colocar comida em cima da mesa, quem vai ocupar um milímetro do seu cérebro a pensar em política? É assim que o sistema se mantém: alimentando a ansiedade de quem mais beneficiaria com uma mudança estrutural.
Grandes revoluções incontornáveis partiram da classe média. Porque é que a nossa classe média não se insurge contra o 1% que arrecadou 66% da riqueza produzida desde 2020 [3]? Para quem não passa fome, o capitalismo até parece um jogo: cada pessoa pode sonhar com acumular o máximo de dinheiro. Por viver nesta expectativa, nesta esperança de que o sistema o beneficie, mantém-no. Claro que é um jogo viciado onde só esporadicamente alguém tem sorte – este tema are muitas portas para discutir, como a relevância, e até existência, do mérito.
Além disso, apesar das nossas capacidades ainda muito por desvendar pela neurociência, nós temos limitações: uma delas é percebermos números com muitas casas. Ora, isto afeta-nos a capacidade de percecionarmos as desigualdades. Quando pensamos num milhão ou num milhar de milhão («billion») sabemos que o segundo é bastante maior que o primeiro. Mas em quanto? Pensemos assim: um milhão de segundos corresponde a 11 dias e meio, enquanto um milhar de milhão de segundos são 32 anos! Por vezes, as palavras são muito mais do que vemos de relance e usamo-las sem pensar no que verdadeiramente representam.
Por fim, gostava de deixar aqui a referência a um comparador de riqueza do World Inequality Database [4]. Ele serve para explorarmos em que posição nos encontramos economicamente relativamente ao panorama geral ao nível do país, região e globo.