A greve dos médicos resultou em vários fatores positivos na luta contra o caminho que nos quer conduzir à miséria e à servidão. Ousou travar a arrogância deste governo na sua atitude do “quero, posso e mando”, sempre em total desrespeito pelos princípios propagandísticos por que foi eleito, e mostrou como uma classe, unida e organizada, consegue ser vitoriosa e consegue fazer valer os seus direitos.
Os médicos souberam ter a seu lado os imediatamente prejudicados pela sua ação, os próprios utentes. Esta greve, para além de justa, em dignificação duma classe profissional, foi altamente pedagógica, pela forma como conseguiu transmitir uma finalidade comum: a defesa intransigente do serviço de saúde público.
Em três dias, o Ministro da Saúde aceitou grande parte das reivindicações dos médicos e aceitou negociar outras. A luta dos médicos, em três dias, quebrou a teimosia arrogante que este governo manteve durante seis meses. A tática do desgaste, a par da intimidação e da propaganda falaciosa, imagem de marca deste governo, desta vez, não surtiu efeito.
O novo proletariado que, em décadas anteriores, era considerado uma classe média interiorizou o poema de Brecht e percebeu – agora já não eram apenas os professores, os enfermeiros e os trabalhadores da administração pública – que a sua vez estava a chegar. Perceberam tarde, mas ainda a tempo de dizer basta. Assim o tivessem entendido empregados bancários, de seguros, dos CTT, da PT e outros que, muito provavelmente, não estaríamos perante a atual prepotência do grupo BANIF.
Por outro lado, despoletou esperança junto de outros profissionais de saúde, e de outros setores, como a educação e a energia que ganharam força para as suas lutas na dignificação do trabalho. Está posto em causa o conformismo de determinados dirigentes sindicais para com o poder instituído, gerindo sindicatos como se fossem mais uma empresa e não uma organização de classe.
A direita, com este Governo PSD/CDS, quer vingar-se do 25 de Abril. Conseguiu o seu almejado “uma maioria, um governo, um presidente”, juntou-lhe uma situação internacional de crise, provocada pela especulação financeira, e tudo faz para aprofundar o fosso entre alguns ricos, cada vez mais ricos e um crescente número de pobres, cada vez mais pobres.
Cabe-nos contrariar este projeto revanchista de empobrecimento de Portugal e da Europa, lutando pelo aprofundamento da democracia e contrariando o regresso a um passado humilhante, injusto e déspota. O êxito da greve dos médicos constituiu um assinalável contributo à democracia, e é uma boa resposta aos “Velhos - e alguns novos - do Restelo”, que dizem que adquirimos demasiados direitos. Perderam a vergonha e finalmente dizem aquilo que pensam.