Lembra-se de dia 11 de dezembro? 11 dias separam-nos desse dia. Não resisto a notar como o exercício de abrir, por exemplo, os sites da comunicação social, mostra como a greve geral já foi um evento longínquo, só aqui ou ali com alguma atualização. Certamente a greve conseguiu algo verdadeiramente extraordinário: quebrar o monopólio de temas da extrema-direita omnipresentes na esfera pública, como é o caso da imigração. Durante um dia foi impossível ligar a televisão sem dar conta do assalto que este governo pretende fazer aos direitos dos trabalhadores – com uma reforma que não foi apresentada nas eleições e que até da estrutura sindical do PSD é alvo de crítica. Durante um dia discorreu-se sobre problemas reais dos trabalhadores e não de fantasmas criados para temperar a opinião pública.
É mais um testemunho da doença a que estamos votados nesta sociedade: a aceleração e assoberbamento não permitem maturar o pensamento, antes cortá-lo sistematicamente com novos temas, numa perceção de obsolescência que nos faz largar o osso com o qual nos açoitarão pouco depois.
Passaram 6 dias, desde as desastrosas declarações do Ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, que geraram uma enorme indignação por colocarem o ónus da degradação de infraestruturas públicas, direta ou indiretamente, nas classes mais desfavorecidas. Tentou-se, até, normalizar essas declarações interpretando-as como uma crítica às gestões negligentes de espaços direcionados para classes desfavorecidas. Os maiores neoliberais quase soaram marxistas. O problema, contudo, mantém-se: Fernando Alexandre é ministro, sendo ele o decisor político, estas afirmações são um exercício de escárnio. Claro que hoje a polémica se resume a artigos escritos no dia, mas só publicados depois.
Não deixa de ser curioso que a própria comunicação social prova deste seu veneno: entre os dias 11 e 12 de dezembro, os maiores jornais do país foram publicando um manifesto assinado pelos seus diretores, totalizando 13 vozes. Trata-se de vozes da imprensa, a chamar a atenção para o facto de em 2026 ser possível que 8 distritos percam a sua distribuição diária de jornais. Também se têm ouvido vozes de jornais regionais e locais a anunciar o seu fim. Ora, nem é um tema marcante na agenda pública.
Certamente que a comunicação não tem consciência do buraco que cavou, só assim é possível que afirmações tão estapafúrdias como as do diretor do Expresso tenham visto a luz do dia, relembro: «É graças ao discurso radical de André Ventura que hoje se pode falar de políticas de imigração sem pruridos, sem ofender ninguém e principalmente sem que a extrema-esquerda acuse qualquer um de xenofobia assim que se começa a discutir a questão». Julgo que não vale a pena dissecar o conteúdo do que foi dito, é óbvio que o discurso de ódio e a violência, inclusive política, estão a aumentar com a instrumentalização da imigração. É tão óbvio que a imigração deva ser discutida, como é óbvio que nunca podemos duvidar de que qualquer indivíduo tem de ter a sua dignidade humana assegurada. O mais interessante aqui é como na semana seguinte a assinar o manifesto sobre democracia, a mesma pessoa assina estas palavras – não só contraditórias, como ofuscantes.
As redes sociais treinam-nos como agentes que reagem, não a sermos críticos, no sentido de pensarmos estruturadamente sobre algo. Mesmo quem produz conteúdos está, na verdade a reagir. Quem melhor para afirmar isso do que quem escreve estas palavras?