Há lugar para o diálogo? Fará sentido?

Há algum tempo estava eu na cama, de noite, e, naqueles acessos filosóficos próprios da madrugada, interrogava-me sobre como seria correto realizar o debate intergeracional. Rapidamente a questão evoluiu para as fundações de um sistema político ideal. Cheguei àquilo que intuitivamente chamei atomização demográfica das estruturas de poder. Bem, presumo que este não tenha sido o parágrafo mais simpático que escrevi, não obstante, penso que fará sentido expor o raciocínio, como exercício de reflexão.

Desde logo, como o pensamento humano não é o mais lógico, vou já moldar o raciocínio, como me parece mais correto e percetível.

Desde logo, a questão de abertura: é frutífero o debate intergeracional? O meu primeiro instinto é concordar. Parece-me que um movimento hegemónico, que aborda as lutas e agendas de uma forma holista, é o que um movimento político democrático bem-sucedido representa. Agora, isto poderá ser uma utopia. Consideremos o seguinte: é 2023 e eu tenho 21 anos, sendo que o meu pai tem 51. Os nossos interesses são semelhantes? É 1980 e a Maria tem 21 anos. Ela e eu temos a mesma agenda? É 2050 e eu tenho 48 anos. Esse eu do futuro tem a mesma agenda do eu do presente? Bem, aquilo que acontece é perceber que as divisões geracionais que existem são perenes, uma vez que os jovens vão envelhecendo e alterando a sua agenda. Os nossos interesses são pontos uma linha do tempo. Existe, claro, uma incompreensão por parte do outro sobre os interesses de cada um, pelo simples facto de não viver a realidade da mesma forma. Em vez de idade podíamos falar de género ou religião. Estas colisões de interesses e identidades são grandes entraves para o debate – mas também são o que torna a realidade rica e interessante.

Em última instância, chegamos à conclusão de que o poder tem de ser reproduzido para cada um dos grupos.  Um governo de jovens para jovens ou de mulheres para mulheres ou de católicos para católicos, por exemplo. Era como se cada um desses grupos tivesse um «país». Na verdade, viver no mesmo espaço seria um caos burocrático – questiono-me até que ponto o sistema atual não é mais próximo do que afirmo, do que aquilo que penso. Não obstante, se as divisões demográficas forem por idades, temos o problema de o envelhecimento existir. Se for por género, precisamos de passaportes para garantir a continuidade da espécie. Há outra problema: quantos predicados devem ser tidos em cota: seria governo de jovens ou governo de mulheres ou governo de jovens e mulheres, por exemplo?

Esta visão é, obviamente, uma caricatura. Se a levarmos minimamente a sério, não podemos falar pela rama como fiz. Qualquer das formas, por estarmos a falar de dividir o exercício de poder sobre um grupo de pessoas, baseando na identidade de segmentos da população, o meu cérebro decidiu chamar atomização demográfica das estruturas de poder. O interessante é perceber que esta visão pode descrever um outro regime político, não tanto por partir a população de uma forma que não fazemos, mas porque vão ter de existir relações entre territórios de índole muito mais próxima, do que a fria diplomacia em que o nosso globo está.

Há algo que aqui ainda não abordei, mas que orienta a ação humana: os valores. Apesar de haver um fosse geracional, mais conceptual que material, há uma ligação de valores histórica. Será que podemos falar de grandes alterações de paradigma que colocam até essa ligação em causa? Talvez, mas não tem de ser necessariamente o momento presente. Parece-me que o que importa são duas coisas: garantir o respeito mútuo, aceitando o progressismo da juventude e a experiência dos que a têm.