Há mar e mar, há investir e investigar

Quem se preocupa com o mar dos Açores e com o futuro da investigação na região terá certamente prestado atenção a duas notícias da última semana. A primeira foi o anúncio de que o Governo Regional vai comprar a antiga fábrica da COFACO na Horta para nela instalar o chamado “Tecnopolo MARTEC”. A segunda é a de que foi assinado o contrato entre a República e a Região para a criação do Observatório do Atlântico a ter lugar no pólo da Horta da Universidade dos Açores.

A vontade política é necessária para elevar a ciência marinha regional ao patamar que o seu potencial permite, mas é precisamente a falta dessa vontade que tem permanentemente asfixiado a capacidade de trabalho da comunidade científica que, com tão poucos recursos económicos e infraestruturais, e apesar de todos os reveses, tem conseguido colocar os Açores no mapa da ciência marinha mundial. 

O que quer isto dizer? Que não basta criarem-se novos centros, prometerem-se investimentos em infraestruturas e em equipamentos, se no centro da discussão da gestão e do rumo que os mesmos podem levar estão ausentes os protagonistas da investigação, do desenvolvimento de projetos, enfim, os cientistas que aqui desenvolvem o seu trabalho. 

São os cientistas que produzem o conhecimento. São eles quem melhor sabe quais são as perguntas relevantes sobre o Mar a que a Humanidade ainda não soube responder e qual é o caminho para lá chegar. São eles quem sabe e quem já demonstrou ao mundo que aqui nos Açores podemos estar mais perto dessas respostas.

Mas o que notamos é precisamente a ausência das vozes dos investigadores. Nas descrições providenciadas pelos protagonistas políticos tanto sobre o as valências do Tecnopolo MARTEC como sobre a operacionalização do Observatório do Atlântico, estão ausentes as perspetivas concretas sobre as linhas de investigação mais aliciantes a decorrer na região. Estranha-se a ausência dos protagonistas dos projetos pioneiros e inovadores que atraem financiamento para projetos, que enchem noticiários e já conseguiram trazer comunicação social de todo o mundo ao nosso arquipélago. Onde está a sua perspetiva, os seus anseios e a forma como esperam que estes grandes investimentos venham a dar resposta e a contribuir para os seus projetos? Foram sequer ouvidos? É a pergunta que fazemos.

Do conjunto de parcerias que alavanca o Observatório do Atlântico, é gritante a ausência do Centro Okeanos, um centro de investigação situado na Horta e especialmente vocacionado para a ciência marinha. Porque se dilui no bolo total da Universidade dos Açores (essa sim, constante da lista de parceiros), a voz e a participação de um centro onde estão os investigadores que conhecem o terreno, representados por ume reitoria que, pela sua natureza, é detentora de uma visão menos especializada, mais abrangente e hierarquicamente distante?

Como iremos potenciar a nossa ciência se não franqueamos a participação aos cientistas da especialidade que trabalham na região? Como poderemos assim vir a ser líderes de projetos internacionais em vez de meros parceiros das agendas políticas e científicas dos outros países e dos poderes centralistas regional e nacional?