HDES é sintoma da asfixia do SRS

Quatro meses após o incêndio no HDES estamos longe da reabertura plena do hospital. Há serviços que reabriram, mas o essencial do HDES continua fora do edifício principal.

Espalhados por diversas instituições continuam os serviços fulcrais de qualquer hospital digno desse nome: serviço de urgência, bloco operatório, cuidados intensivos, entre outros.

O serviço de urgência prometido para final de agosto pelo presidente do governo regional afinal é por enquanto apenas um serviço de atendimento para situações não urgentes até à conclusão de todo o hospital modular. O prazo para conclusão desse hospital modular, final de outubro, passou ontem para “final do ano”. E Bolieiro derrapa mais uma vez nos prazos com que se comprometeu sem dar uma justificação.

Enquanto isso, o acesso à saúde nos Açores, com o maior hospital da região amputado, está perigosamente condicionado. Sobre os motivos que levam a que grande parte do HDES esteja exatamente na mesma desde 4 de maio não há clarificação.

Como chegamos até aqui já sabemos. O HDES foi alvo de desinvestimento ao longo dos anos. Desinvestimento dos governos do PS e dos governos do PSD/CDS/PPM.

Não me esqueço de que, quando Bolieiro chegou a presidente do governo com o apoio do CH e da IL, o então secretário regional da saúde visitou hospitais e unidades de saúde, denunciando o estado de degradação a que tinham chegado. Mas o que fez foi deixar os projetos de investimento e modernização na gaveta, continuar o subfinanciamento e empurrar as pessoas para o privado. Onde só vai quem pode pagar. Nada de novo.

Neste momento crítico, o governo fala de um novo hospital, para 30 ou 40 anos, como se os hospitais pudessem ser deitados fora após 25 ou 30 anos de vida. O maior hospital do país, o hospital de Santa Maria, em Lisboa, foi inaugurado nos anos 50, teve inúmeras obras de modernização e ainda funciona.

O que o HDES e todo o SRS precisa e precisava há muito, é de investimento, modernização e atração e fixação de profissionais. E até haver esse tal “novo hospital”, ficará o HDES amputado por opção do governo regional e a saúde em São Miguel e nos Açores dependente de um pequeno hospital modular e da CUF. Bem sei que dará jeito a alguns, que assim compõem as suas contas, mas as pessoas irão sofrer e muito!

Entretanto, a política de saúde do governo é inexistente. E numa área com esta dinâmica e escassez de profissionais no país, isso significa parar no tempo e ficar para trás. Significa abrir mercado para um setor privado que se aproveita das fragilidades do SRS. Por exemplo, gastam-se milhões com contratos de prestações de serviços com empresas para a colocação de médicos tarefeiros - só o hospital de Angra nos últimos 12 meses contratualizou por ajuste direto 99 contratos para prestação de serviços médicos.

Projetar um “novo hospital” não pode ser feito sem planear o SRS. Modernizá-lo, criar condições para atrair, fixar e formar profissionais. Um governo regional que faz crescer até aos 200 milhões as dívidas a fornecedores do SRS, que não transferiu para as unidades de saúde de ilha mais de 30 milhões - quando em agosto passado a secretária regional da saúde afirmou que já tinha transferido 25 milhões - tem como projeto para o SRS uma asfixia lenta.

É preciso travar esse caminho para o abismo, como o prova o incêndio no HDES.