Hipocrisias de um sistema

Existe algum sistema que aceite, e até promova, dizer-se uma coisa e fazer-se outra? Pois, parece que é o nosso dia a dia. Permitam-me pegar no exemplo do Mês do Orgulho.

Como já antes abordei, o Mês do Orgulho é um importante período de visibilidade. Por isso mesmo se realizam uma série de atividades e eventos, como são exemplos as marchas. É, portanto, de salutar que várias entidades, muitas delas privadas, se juntem à causa nesse esforço comum de tornar a nossa sociedade mais inclusiva. Onde está o problema, então?

Desde logo temos de ter noção que o movimento pela igualdade de direitos para pessoas LGBT+ teve uma maior alavancagem nos anos 60. Na manhã do dia 28 de junho de 1969 aquela que seria uma uma rusga policial corriqueira a um bar gay acabou por ser um ponto de viragem na História dos direitos humanos: os clientes, atingindo o ponto de ebulição, revoltaram-se contra o abuso policial e a multidão que se amontoava junto do Stonewall Inn acabou por se envolver nos confrontos. Uma série de incidentes levaram a que aquela rusga fugisse ao controlo da polícia, tendo resultado em tumultos que duraram dias.

A revolta de Stonewall, como ficou para a História, expandiu a revolução sexual, adicionando-lhe o movimento da Libertação Gay. Até então o movimento LGBT, tímido, defendia um ativismo gradual e pedagógico - no entanto, sem resultados observáveis. A libertação veio trazer o modo de vida do «como se»: os indivíduos agem da forma como iriam agir se vivessem num mundo onde as suas causas saíram vitoriosas. Nesta caso, tratou-se de se ser abertamente LGBT, quer isto dizer, agir como se não houvesse problema em duas pessoas do mesmo sexo demonstrarem gestos de carinho em público, como beijarem-se ou darem as mãos, saírem do armário para a sua família e amigos, viverem com o parceiro, etc. Basicamente, pessoas LGBT passaram a fazer, publicamente, o mesmo que os casais heterossexuais. Apesar de hoje conseguirmos imaginar isso a acontecer, a verdade dos anos 70 era muito diferente.

É óbvio que o apoio escasseava. Foi só mais tarde quando direitos começaram a ser conquistados que as empresas viram uma possibilidade de fazer negócio: tornar o Orgulho numa marca. Foi com este amor ao lucro que vimos e vemos muitas empresas, grandes e pequenas, a fazer doações, vender artigos e assumir como suas as cores da bandeira LGBT+. 

Como se já não fosse suficiente este aproveitamento oportunista, ainda existe a tal questão da hipocrisia: as empresas só tomam atitudes a favor da comunidade LGBT+ onde lhes dá jeito e quando lhes dá jeito. 

Por um lado, várias empresas adotam a causa no dia 1 de junho e logo a deixam no dia 1 de julho, sendo que esse tipo de marketing só se dá em países que reconhecem os direitos LGBT+. As marcas não se atrevem a tomar esse tipo de atitudes onde sabem que domina um poder conservador. A acrescentar, temos várias das grandes empresas que aparentam defender as causas a fazer doações para políticos abertamente homofóbicos e transfóbicos, como é o caso da AT&T. 

Queremos mesmo viver num sistema desprovido de empatia e sensibilidade? Precisamos de valorizar as pessoas e não o dinheiro. Não sejamos cegos ao ponto de dar mais valor a um papel do que a uma vida.