Por respeito ao período de campanha oficial, que acarreta igualdade de tratamento aos partidos políticos, este artigo e o da próxima semana não serão sobre as regionais, nem terão conteúdo propagandístico.
Posto isto, a nossa questão: como progride a História? O que vivemos hoje é totalmente diferente do que já aconteceu, ou tem traços comuns? Haverá um outro eu que estará nestas mesmas condições a escrever este mesmo artigo no futuro? Na História há dois grandes conjuntos de teorias: lineares e cíclicas. As lineares têm em comum a defesa de uma cronologia como reta, uma evolução propriamente dita. As cíclicas realçam que os momentos históricos se repetem, mesmo que não sejam exatamente iguais e havendo progresso.
Podemos olhar para esta questão pensando no tempo, como sendo a sua extrapolação metafísica. Aliás, na Antiguidade Clássica, a cultura grega concebia o tempo, justamente, como cíclico. Tinham as mais variadas formas de o justificar e de lidar com ele, estando presente na mitologia e nas crenças de transmigração da alma – também muito presentes no mundo oriental. É o iluminismo que cimenta a visão do tempo como uma reta. O cristianismo haverá de ter dado o seu contributo, tal como a teoria darwiniana da evolução, mas o progresso tecnológico que radica do pensamento iluminista será decerto o expoente da razão como estrela polar para o futuro do Homem, rumo a um desconhecido cada vez melhor que o momento anterior.
Mais do que um problema filosófico ou da História (ou da Física), falamos de uma questão com profundo impacto social, estando aqui igualmente subjacentes teorias sociológicas. Falar de um tempo cíclico leva-nos a olhar para a História e poder vê-la de uma forma algo determinista, na medida em que identificamos um tempo muito semelhante ao nosso e especulamos o futuro com base no que aconteceu no passado – muito útil para evitar catástrofes humanas. O passado é um espelho do futuro e o trabalho do historiador é, também, fazer alertas à navegação. Claro que o modelo linear não exclui esta importância do historiador, mas tenta trazer algum otimismo, olhando para o futuro como uma tela em branco, cujo passado é mero conselheiro.
Uma noite apeteceu-me pensar diferente. Talvez seja absurdo, mas se fizer alguma das pessoas que lê estas palavras pensar, dou-me por feliz. Julgo que o nosso tempo histórico não é linear, nem cíclico: é estroboscópico. Pensemos numa bola de basquetebol que largamos: ela cai, bate no chão, sobe, desce, sobe, desce,…, até ficar no chão. Se lhe dermos um empurrãozinho para a frente quando a largamos, podemos ter uma imagem estroboscópica perfeita: tiramos periodicamente fotografias, de um mesmo local, ao espaço onde esta a bola e fazemos uma montagem, juntando todas as fotografias. Veremos nesta imagem a bola várias vezes repetidas, quase que fazendo uma linha a marcar o seu trajeto – mais espaçado aqui ou ali, denotando as várias velocidades do movimento. Um conceito perfeito para cinética na física. Mas esta bola é cada momento do nosso mundo, todo um contexto que se move estaticamente.
Dirão que esta minha imagem é cíclica, uma vez que conserva a sua maioria, que é um movimento algo aleatório. Dirão que esta minha imagem é linear, porque avança no tempo com mudanças, mesmo que com alguma aleatoriedade. Pois bem, a mim, cabe-me justificar: os nossos problemas humanos são os mesmos de sempre. Apesar do mundo progredir, o nosso contexto é essencialmente o mesmo. Isto acontece por uma razão muito simples: as nossas necessidades são sempre as mesmas, mesmo que possam assumir novos moldes.