As últimas semanas não têm sido amenas no que concerne à saúde em Portugal. Permitam-me trazer aqui dois temas que marcaram a atualidade.
No dia 21 de outubro foi noticiado que os técnicos de emergência pré-hospitalar, responsáveis pelo atendimento das chamadas de emergência de saúde do INEM fariam greve às horas extraordinárias por tempo indeterminado a partir de dia 30 de outubro. No dia 2 de novembro expunha-se picos em que havia mais de 100 chamadas em espera, associando-se duas mortes ao tempo de espera. No dia 5 de novembro a ministra mostrou-se surpreendida com a existência de uma greve. Com a sétima morte, no dia 7 o Presidente da República pede respostas, levando o primeiro-ministro a reconhecer a «situação grave».
No passado dia 9 de novembro, sábado, a Direção-Geral da Saúde tornou pública a mudança de cor dos boletins de saúde infantil e juvenil, de forma a tornar todos amarelos – anteriormente eram cor-de-rosa e azul, dependendo do sexo – sendo que com duas versões, cada uma com o símbolo do sexo correspondente. Esta decisão teria um fundamento gráfico, na medida em que os cadernos de vacinação já são amarelos. Foi também dito que os boletins de saúde seriam emitidos provisoriamente, uma vez que seriam desmaterializados, passando para o digital.
Qual foi, então, o desenrolar destes acontecimentos?
Nesse dia 7, dezassete (17) dias após a convocação da greve, a ministra decide reunir com o sindicato, levando ao término da greve. As carências do INEM estão expostas na comunicação e exigem-se respostas: no dia 9 a secretária de estado da gestão da saúde afirma que a comunicação social está com «anemia», afirmando que os tempos de espera são semelhantes a anos anteriores, e no dia 12 a ministra afirma perante o parlamentou lamentou as onze mortes associadas a atrasos no INEM nos últimos dias, assumindo «total responsabilidade pelo que correu menos bem no INEM». «pelo que correu menos bem».
Quanto aos boletins, no dia 12, o mesmo em que a ministra foi ao parlamento, três (3) dias após o comunicado da DGS, o ministério ordenou que os boletins continuassem a com as cores a azul e cor-de-rosa.
A nossa ministra da saúde demorou 17 dias a agir perante uma greve, uma semana depois da primeira morte associada ao tempo de espera no INEM, mas em três dias resolveu intervir sobre a cor dos boletins – estando simultaneamente a lidar com ambas as situações. Nenhuma reposta foi dada para esta decisão do ministério interferir na resolução da DGS, mas ao que tudo indica trata-se de uma resposta às críticas de como se estaria a ir pelo caminho da «ideologia de género», do movimento «woke», anulando-se os papéis de género. Esta crítica foi tida abertamente pelo CDS, parceiro de governo. Não deixa, no entanto, de ser mal aplicada: os boletins continuavam a figurar símbolos que se associam aos sexos, continuando o binariedade simbólica, mesmo que com uma cor única.
Aquilo que aqui vemos é um Ministério que rapidamente dá resposta a uma suposta guerra cultural, mas se revela incompetente e apática em lidar com as situações de vida-morte que tinha em mãos. Isto deve assustar-nos. Os conservadores preocupam-se mais e afirmar o seu conservadorismo (que se traduz em restringir os direitos de todos), do que em desempenhar as suas funções. Olhamos para a equipa que, entretanto, Trump escolheu e percebemos isto mesmo. E isto num clima de completa pós-verdade, em que os responsáveis saem impunes: veja-se o caso de Valência em que o presidente da região negligenciou o alerta meteorológico, chegou atrasado duas horas à reunião de emergência por estar a almoçar,…