A importância do humor

Já há umas semanas que tenho andado à espera de que o Polònia (TV3) voltasse das suas férias para dar seguimento às suas publicações. Trata-se de um programa catalão de televisão que, entretanto, emigrou para o Youtube [1]. O seu conteúdo é muito semelhante ao nosso DDT ou Estado de Graça, apesar de produzir, relativamente, mais musicais. Trata-se de curtas satíricas que retratam figuras públicas, a maior parte da política, centrando-se na forma como lidam com os temas da atualidade.

Cartoons e ilustrações que figuram na comunicação social também são formas humorísticas de olhar a atualidade. Temos muito bons cartoonistas que vivem do seu trabalho, destacando-se mesmo a nível internacional. Um cartoon animado que gosto muito é o Spam cartoon, pequenas curtas que contam com muita gente para serem produzidas. Elas são, aliás, transmitidas na RTP Play. [2]

O Ricardo Araújo Pereira e a sua equipa são provavelmente o exemplo mais mediático da atual sátira política. Mas precisamos de mais. De recuperar o DDT ou o Contra Informação. Aumentar a oferta desses conteúdos.

Falar humoradamente da atualidade é dar informação a pessoas que provavelmente não a teriam. O facto de haver figuras públicas, como apresentados ou humoristas, ou representações de figuras públicas, gera a curiosidade mesmo de quem não pretende inteirar-se propriamente das notícias. É claro que estes conteúdos são caricaturas, mas radicam da verdade. É claro que são enviesados, mas daí a importância de haver mais de uma fonte de conteúdos disponível – tal como sucede com aquele jornalístico.

Aliás, há alguns projetos de jornais satíricos, associados a jornais [3] ou não [4]. Fake news que são divulgadas como tal, não tentando enganar ninguém, antes entreter com a realidade.

Além da questão pedagógica e de tentar levar a informação a mais gente, pelo menos a curiosidade por ela, a sátira tem um papel na consciencialização e mobilização. Estou convencido que a democracia reserva um importante papel para estes espaços: incutir humildade aos líderes, conferir humanidade às figuras públicas. Perceber que os cargos são ocupados por pessoas, que o ideal democrático é ele poder ser alcançado por qualquer pessoa, desde que seja apoiada pelas massas. Perceber que a crítica é fulcral num ambiente plural. Perceber que o sentido de humor é um instrumento quotidiano. Perceber que o riso é uma necessidade.

Pus-me a escrever este texto nem tanto a pensar no panorama nacional, mas sim nos Açores, ou mesmo a um nível local. Apesar de não termos as representações que referi com saudade, há muito trabalho nesse sentido (maioritariamente for da televisão) e até feito por «anónimos». É a olhar para a realidade regional que vejo uma lacuna: tendo uma cena política complexa, uma dinâmica política própria, com imensos atores regionais, fará todo o sentido aplicar o humor nesse contexto. Bem sei que há alguns cartoons, às vezes alguns podcasts, mas não tenho conhecimento de nada mais, muito menos um real investimento nesse sentido. Seria muito relevante a RTP Açores tomar uma ação nesse sentido. Dinamizar os profissionais da cultura na região a criarem uma sátira regular e de qualidade à atualidade regional.

De forma semelhante para o poder local: pelo menos a comunicação social procurar alguns apontamentos humorísticos, tentar mobilizar pessoas para essa criação. Tentarei isso no Pensar Santa Maria.

[1] https://www.youtube.com/@polonia

[2] https://www.rtp.pt/play/p4088/spam-cartoon

[3] https://expresso.pt/inimigo-publico

[4] https://imprensafalsa.com/