Quando passamos a frequentar um espaço no nosso quotidiano, parece-me apropriado que nos inteiremos sobre ele. Saber como funciona e como pode ser melhorado. E fazermos por isso. Seja em casa, no trabalho, numa associação, num sindica, numa escola, num clube,… Podemos querer essa mudança por motivos mais ou menos altruístas (o bem-estar dos outros com essas mudanças pode ser um bónus), o que importa é não sermos indiferentes.
A abertura ao mundo é a recusa de nos fecharmos no casulo das nossas próprias certezas e o compromisso ativo de olhar para além das fronteiras do visível. Manifesta-se na curiosidade intelectual que nos empurra para o desconhecido, na empatia que nos permite acolher a alteridade sem julgamento imediato, e na coragem de nos deixarmos transformar pelo contacto com novas realidades, culturas e saberes. Longe de ser uma atitude passiva de mera contemplação, esta postura exige uma disponibilidade ética para escutar, interrogar o quotidiano e intervir criticamente na sociedade, reconhecendo que cada espaço que habitamos é um ecossistema vivo do qual somos corresponsáveis. Numa época propensa ao isolamento digital e a bolhas ideológicas, mantermo-nos abertos ao mundo significa assumir a vulnerabilidade de aprender continuamente, transformando a nossa experiência individual num canal de diálogo, renovação e cidadania plena.
Confesso que me parecia que o local por excelência fértil a esse espírito era a universidade. A minha experiência, contudo, tem mostrado o contrário. Pensemos: as universidades com locais com a maior densidade de intelectuais, seriam locais de enorme conhecimento e virtudes epistemológicas, os professores usariam o próprio conhecimento de modo crítico para melhorar a sua instituição. Aquilo que vejo nos órgãos de gestão pelos quais passei é muito diferente.
Porque deixam os académicos de ser académicas durante um par de horas dentro de uma sala académica, se o assunto for de gestão? Como é possível que sociólogos, filósofos, historiadores, literatos, linguistas, arqueólogos, geógrafos, comunicólogos e documentalistas que lidam quotidianamente com questões políticas como relações de poder ou democracia nas suas investigações, se esqueçam de tudo isso no exato momento em que esse olhar permitiria transformar realmente o seu mundo?
O conhecido filósofo Michael Sandel afirma logo no início do seu curso «Justiça» (disponível no Youtube) que o estudo de Filosofia Política acarreta dois riscos: considerar-se que quanto mais se sabe do assunto, melhor cidadão se é; e que se está a aprender o que «já se sabe». Não basta saber, é preciso agir, e fazê-lo num plano axiológico, com valores definidos. Por outro lado, é preciso ser autocrítico em relação aos preconceitos que se vão formando em torno de conceitos tão quotidianos como a política.
Despirmo-nos da nossa identidade crítica quando temos poder é, portanto, abdicar da cidadania plena. Se o conhecimento não se traduzir numa postura ética perante o quotidiano e os seus problemas mais imediatos, a universidade falha na sua missão mais nobre: a de ser um espelho vivo da abertura ao mundo. Urge recuperar a coragem de cruzar a teoria com a práxis, lembrando que a transformação da sociedade começa sempre pela coerência com que gerimos e habitamos os nossos próprios espaços. Só quando o intelectual recusar o confortável manto da indiferença administrativa é que a academia poderá, finalmente, reatar o seu compromisso com a verdade e com a comunidade.