Hoje apresento na faculdade onde estudo um poster sobre um problema que me atormenta e que julgo já aqui ter partilhado: o aumento exponencial da informação. Aquilo que mais me apoquenta é que esta formulação não me parece precisa: é preciso reformulá-la.
A sociedade contemporânea vive imersa num ambiente marcado pela multiplicação incessante de dados, mensagens e estímulos. A informação não é apenas algo que recebemos passivamente; é uma construção. Ela poderá ser definida de imensas formas desde incerteza removida, fragmentos de conhecimento, dados organizados ou símbolos comunicados, entre outras definições. Até pode ser encarada como algum padrão de organização da matéria e da energia ao qual um ser vivo atribui significado. O indivíduo não absorve informação como um recipiente vazio: integra-a num quadro interpretativo, atribuindo-lhe sentido segundo as suas necessidades e enquadramentos simbólicos. Assim, qualquer aumento de fluxos implica, necessariamente, transformar os próprios modos de leitura e de uso.
No quotidiano, as fontes de informação multiplicam-se: meios de comunicação, redes sociais, mensagens digitais, espaços culturais, instituições, escolas, serviços públicos. Cada uma produz modos específicos de relação com a informação, efemeridade, desafeição, assoberbamento, desinformação, ansiedade, vício, futilidade, desconcentração, otimização, exclusão, ignorância informada e desorientação. Que se note como muitos destes aspetos são muitas vezes apontados como aquilo que temos de melhorar e, portanto, como se relacionam com informação. Esta diversidade de origens e impactos torna essencial repensar não apenas o conteúdo que circula, mas o sistema relacional que o sustenta.
Algumas perguntas cruciais ocorrem-me: Como alargar? Como demorar? Como nos abrimos? Como digeríamos? Como encontrar? Como desbloquear? Como averiguar? Como prevenir? Como evitar? Como gerir? Como desligar? Como avaliar? Como aprofundar? Como substanciar? Como pensar? Como persistir? Como organizar? Como abrandar? Como incluir? Como clarificar? Como ensinar? O que ensinar? Como pesquisar? Como selecionar?
Neste momento torna-se me claro: a questão subjacente é uma e só uma: como garantir o acesso democrático à informação?
Democrático não apenas no sentido de disponibilizar conteúdos, mas de assegurar condições equitativas para compreender, contextualizar e usar esses conteúdos de forma consciente. Significa fomentar literacias múltiplas, incentivar a reflexão, promover transparência e criar ambientes que favoreçam a autonomia intelectual.
A sociedade da informação não é apenas um fenómeno tecnológico, é um desafio cultural, político e ético. Exige que reconheçamos a complexidade dos sistemas informacionais e a importância de formar cidadãos capazes de navegar, interpretar e participar ativamente na construção do conhecimento comum. A educação é, como seria de esperar, uma área crucial para enfrentar todas estas questões; não numa ótica de preparação para o mercado ou como alguém que padronizadamente usa ferramentas, mas como forma de emancipação.
Este é um tempo estranho. O conceito-chave aqui é algo que, tendo uma concretização material, tem uma natureza prática virtual. Regulamos a nossa sociedade por nuvens. Não posso deixar de notar como esta evasão do mundo se afasta de um propósito de estruturação e vai de encontro ao que se descreveu no artigo da semana passada.