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Invejosos

Dando bom uso ao princípio da continuidade territorial, os Açores quiseram juntar-se à festa de ter uma crise política. Costa assinou sentença do seu governo, quando recusou acordos em 2019. Bolieiro nunca deveria ter aceitado os acordos que fez, cedendo a uma sede de poder.

Apesar de não podermos afirmar que se previa longa vida ao Governo Regional, a verdade é que a sua possível queda neste momento está relacionada com a crise a nível nacional.

A partir do momento que a coligação aceitou depender da IL e do CH, tornou-se um alvo fácil dos seus caprichos. No caso do CH, temos uma novela regional que deu bons meses de entretenimento (para não dizer preocupação), que demonstra o que a sensação de poder faz a quem o usa para defender interesses pessoais e partidários. O PSD legitimou a governação com a extrema-direita, depois de muitas cambalhotas. 

Com as legislativas nacionais antecipadas a chegar os partidos agitam-se da forma que podem. O CH, sedento por poder, continua a tentar criar dramas para ter atenção. Uma forma de manipulação é, claro, usar o fantoche açoriano. Chantagear um PSD nacional com a queda de um governo do PSD Açores. É óbvio que o CH Açores não quer isso. Depois de um ano tão intenso, precisa de recuperar a credibilidade que tinha. Por isso mesmo dá jeito a José Pacheco dar a entender que a autonomia existe, afastando justamente essa ideia de fantoche e, por consequência, aprovando este orçamento.

Claro que o CH não podia aprovar os documentos sem mais nem menos. Faz as suas habituais e boçais reivindicações de prejudicar ainda mais aqueles que são marginalizados pelo sistema. Aproveitam uma brecha na classe média descontente e atacam os mais desfavorecidos e indefesos.

Mas não nos esqueçamos que a IL também ainda não fechou o seu voto. O GR já demonstrou, nesta proposta, uma aproximação às reivindicações dos liberais, apesar de nãos os satisfazer por completo. A acrescentar, pelos vistos, Carlos Furtado pode chumbar o orçamento se o Governo aceitar uma proposta do CH – e se basta somente mais um voto contra isto pode ser fatal.

Permitam-me deixar aqui esta informação que desconhecia, mas que pode ser útil para vermos em que situação estamos: um empate na Assembleia Regional leva a nova votação, sendo que se o empate persistir a proposta é rejeitada. 

Neste momento existem 28 votos contra e 26 a favor. Nuno Barata, José Pacheco e Carlos Furtado são os fiéis da balança. Basta um votar contra que os documentos são chumbados. Basta um se abster que há empate. A situação não está bonita.

E onde está o Presidente da República? Não nos podemos esquecer que Marcelo Rebelo de Sousa é presidente de todos os portugueses, onde se incluem os açorianos. É ele quem tem o poder de dissolver a Assembleia Regional. Não houve qualquer problema em fazer chantagem com a esquerda parlamentar sobre a aprovação do Orçamento de Estado, mas sobre os Açores o que diz é que está confiante na passagem dos documentos. Portanto, se se tratar de um governo de direita, mesmo com os acordos de apoio parlamentar rasgados, a estabilidade é algo que surge naturalmente. 

Marcelo é um estratega com uma visão privilegiada. De vez em quando decide parar de arbitrar para dar uns toques na bola. Açorianos, isto não está bonito, mas, mais cedo ou mais tarde, somos nós quem dita como isto se vai resolver.