Isto vai!

Este fim-de-semana foi marcado pela XIV Convenção Nacional do Bloco de Esquerda. Tive a oportunidade de participar nela como delegado eleito pelas ilhas do grupo oriental, experiência que me leva a dedicar aqui algumas palavras.

A Convenção foi marcada pelo exercício de autocrítica: não só a oposição interna, mas também vários delegados da moção maioritária teceram duras críticas à atuação do partido e o rumo a reconsiderar. E bem. Só através da crítica, ou seja, da análise rigorosa dos limites, é possível avançar. Permitam-me algumas considerações que me parecem pertinentes mesmo para quem não é aderente do Bloco – pertinentes para quem quer melhorar o mundo.

Desde logo, é preciso cristalizar o básico: para que serve um partido. No artigo do passado dia oito de julho abordei esta questão com um pouco mais de detalhe. A conclusão é simples: um partido é um meio para a participação democrática. Vivemos numa democracia representativa, o que significa que abdicamos de cada cidadão ser um decisor político sobre as matérias a legislar, cedendo essa responsabilidade a cidadãos que são eleitos para os órgãos aos quais reconhecemos essa autoridade legisladora. No nosso país, como em muitos outros, a Constituição prevê que essa representação deve ter como plataformas partidos políticos (à exceção das autárquicas - onde pode haver candidaturas independentes, porque partidos regionais são ilegais - e das presidenciais - sendo as candidaturas individuais, uma vez que é um cargo uninominal). Os partidos são, então, grupos de cidadãos que partilham um determinado conjunto de ideias. Será muito difícil alguém se rever totalmente na ideologia e no programa (a concretização da ideologia numa proposta de sociedade) de um partido. Essas pequenas cedências são compensadas pela união, pelo trabalho conjunto. Num partido não tem de haver necessariamente relações de amizade, mas fraternidade.

Existem, então, dois erros que me parecem comuns e costumam passar negligenciados: a espera e a imposição.

Por um lado, é fácil apontar o dedo a dirigentes, com ou sem razão para isso; o mais difícil e urgente é ser proativo. Perante o desgaste de quem é responsável, a cura está no entusiasmo de mais gente. Não nos podemos esquecer que a democracia só o é se houver processo democrático e este faz-se com a abertura e justiça para a participação, mas também, claro!, com a participação.

Por outro lado, na tentativa do alargamento da militância cai-se ora no marketing, ora no Cavalo de Troia. Ora se tenta vender o partido, ora se cria uma plataforma partidária sem o assumir. Estas visões têm o partido como fim e não como meio, estando muito próximas do clubismo. Devemos estar no máximo de espaços políticos não-partidários não para promover a marca, mas porque reconhecemos nesses espaços a possibilidade de melhorarmos a comunidade. Não escondemos a militância partidária, simplesmente não é ela um fim: o fim é a transformação do real. Face ao que defendemos e ao que é conquistado, quem se rever no dito e feito perceberá intuitivamente que partido traduz esse querer. É assim que damos conteúdo à política: os partidos são plataformas programáticas.

É certo que estes dois parágrafos podem ser acusados de serem otimistas quanto à predisposição política das pessoas. A verdade é que a cada dia a Verdade de Sileno parece mais próxima, contemplamos o fim. O emaranhado de crises em que vivemos deve ser o que nos compele a construir um mundo melhor. Se não por nós, pelos nossos filhos.