As Jornadas

Esta terça iniciam-se as Jornadas Mundiais da Juventude, evento católico que contará com a presença do Papa Francisco. As JMJ 2023 têm dado muito que falar desde o «Conseguimos, conseguimos, conseguimos, Portugal, Lisboa. Esperávamos, desejávamos, conseguimos. Vitória.» proferido por Marcelo Rebelo de Sousa em 2019. Segundo número do Expresso [1], publicados no passado domingo, conta-se com a presença de 1,2 milhões de peregrinos na capital portuguesa. De acordo com a mesma fonte, este evento deverá ter um custo de 160 milhões de euros, sendo metade suportado pela Igreja. Ou seja, 50% do financiamento deste evento advém de organismos públicos, a saber: 36 milhões pelo Governo, 35 milhões pela Câmara de Lisboa e 10 milhões pela de Loures.

Este investimento de 80 milhões de euros do dinheiro dos contribuintes será, provavelmente, o ponto mais sensível para a opinião pública, por diversas razões. Desde logo, tivemos a ação de Bordalo II [2], que estendeu um tapete de várias notas de 500€ gigantes, ao longo do palco onde o Papa realizará a missa. Esta ação pacífica, que não danificou qualquer preparativo, pautou pelo apelo simbólico às necessidades que o povo tem e são ignoradas. Olhe-se para o exemplo dos transportes: durante muito tempo tiveram os lisboetas de se aventurar em transportes públicos que eram latas de sardinhas, mas agora, com as JMJ, já haverá um reforço da operação – ou seja, havia meios, não havia interesse de se resolver o problema.

Outro ponto sensível será percebemos que Portugal é um Estado laico: não existe uma religião oficial, toda e qualquer pessoa é livre de expressar a sua fé. Como é possível então organismos públicos colocarem dinheiro num evento religioso? Uns diriam que, segundo os censos de 2021, 80% da população diz-se católica. Outros diriam que, na verdade, não se trata de apoiar um evento da Igreja, mas antes de um investimento que trará retorno económico para o país. A resposta à primeira parece-me muito tortuosa, não consigo encontrar grandes certezas que não tragam consequências perversas. Já a segunda questão, de cariz economicista, aquilo que afirma é não se olhar a meios para atingir os fins, o que, decerto, não fará qualquer sentido ser aplicado a um Estado.

O terceiro ponto consiste nas descobertas recentes sobre o encobrimento de abusos sexuais, como consta no relatório oficial apresentado este ano [3]. Uma problemática com uma grande carga emocional. Faltam muitas respostas, falta justiça ser feita. Como pode o governo ajudar uma instituição com isto em mãos a fazer um festival internacional?

Li outro dia um artigo do cantor de «Para os braços da minha mãe», Pedro Abrunhosa [4]. Ele faz-nos perceber que estas críticas não são um ataque ao cristianismo, mas antes a quem o deturpa. Aconselho a leitura aos mais devotos que se ofenderam com Bordalo II.

[1] https://expresso.pt/sociedade/jornada-mundial-da-juventude/2023-07-30-JMJ-conheca-os-principais-numeros-em-torno-da-vinda-do-Papa-Francisco-a-Portugal-97cb37b5

[2] https://www.publico.pt/2023/07/27/p3/noticia/habemus-pasta-bordalo-ii-invade-altarpalco-jornada-mundial-juventude-desenrola-tapete-notas-500-euros-2058428

[3] https://www.cnpdpcj.gov.pt/documents/10182/14804/Comiss%C3%A3o+Independente+Estudo+Abusos+Sexuais+Crian%C3%A7as+Igreja+Cat%C3%B3lica+Portuguesa_RELAT%C3%93RIO+FINAL_Sum%C3%A1rio+Executivo/39f039a4-c4a4-4ae2-9ce2-908b762ca10d

[4] https://www.publico.pt/2023/07/29/opiniao/opiniao/bordalo-ii-tapetes-vergonha-estadios-euro-2004-ja-2058573