Passos Coelho, antes de ser Primeiro-Ministro, dizia que nunca invocaria os erros do seu antecessor para justificar as medidas a tomar, que conhecia bem todos ‘dossiers’, que sabia bem o caminho que iria seguir, que não agravaria mais a carga fiscal, que iria desenvolver a economia e inverter a tendência crescente do desemprego. Tudo mentira.
Já no governo, rasgou todas a suas promessas, esqueceu tudo o que sabia e as certezas são, agora, imprevistos. Invoca constantemente os erros do passado, como se a política do seu partido não fizesse parte desse mesmo passado. Critica as parcerias público-privado, como se elas não tivessem sido introduzidas em Portugal por Cavaco Silva e, mais tarde, reformuladas por Ferreira Leite. Diz, agora, que temos é que apostar na agricultura, aquela mesma agricultura que os governos de maioria PSD desbarataram na década de 1985/95.
Há, apenas, um único caso em que este governo de direita não culpa o passado: quando encobre e branqueia o escândalo BPN. Porquê? Simples. Porque dele faz parte o grosso da coluna cavaquista que mais tempo governou Portugal e que mais sonegou o erário público em proveito próprio.
O desemprego aumenta constantemente. A economia já não está estagnada, retrai cada vez mais e de forma assustadora. Diminui a capacidade financeira de quem vive do seu trabalho. Os custos com a saúde provocam a mortandade de reformados, pensionistas, doentes oncológicos e outros mais desfavorecidos. O acesso ao ensino, à semelhança do tempo de Salazar, será, brevemente, um privilégio para os filhos dos senhores ricos. A cultura tende a ser um luxo, apenas para alguns. O desporto, face à diminuição dos apoios, é, cada vez, mais elitista.
Mas este governo inovou, aproveitando de forma oportunista o novo acordo ortográfico, e à semelhança da sua prática à luz do da ‘troika’ – o tal que dá imenso jeito à sua política de direita – quis, também, ir mais longe do que a ortografia, entrando, assim, no campo semântico. A riqueza do nosso vocabulário permite ao governo, de forma abusiva, chamar 'lapso' à 'mentira recorrente', 'excepção' ao 'favorecimento escandaloso', 'imprevisto' à 'omissão deliberada', 'temporário' ao 'pretensamente definitivo'.
Tudo isto para quê? E em nome de quem? Para satisfazer a ganância dos especuladores dos grupos financeiros e para prestar vassalagem aos coveiros da Europa?
Não terá chegado o momento deste Povo dizer que também cometeu um lapso, que se enganou, e que, verdadeiramente, o que quer é outro governo e outra política para o País?