Macaquinhos, coriscos e tarelo ou O progresso a levar nas ventas

Em 2017 li um livro que me impactou particularmente: Utopia para realistas de Rutger Bregman. Estava eu no Faial a visitar parte da minha família quando o comprei e abri: «Comecemos com uma breve lição de História: No passado, tudo era pior. Ao longo de 99 por cento da História do Mundo, 99 por cento da Humanidade era pobre, faminta, suja, imbecil, doente e repugnante.» Este início, sem dúvida, impactante e recheado de fontes científicas, leva-nos a perceber que há esperança para a resolução dos problemas que identificamos à nossa volta. Claro está que não podemos deixar-nos acomodar, tapando os olhos ou indo para as redes sociais comentar a atualidade e mais o que se aprouver. O que me levou a escrever este artigo foi a leitura de uma notícia sobre os EUA, sendo que aproveitei para fazer uma súmula de outros acontecimentos políticos, completamente tresloucados, que me parecem um ataque completo ao progresso até aqui alcançado – cada um com a sua respetiva fonte. Que se note que cada um destes exemplos ocorre em países que ficam bem classificados no índex da Freedom House [1].

[2] Desde logo temos os EUA, palco já habitual dos atentados ao bom senso, onde no final de fevereiro o NYT noticiou um aumento assustador (68%) do trabalho infantil – em grande parte através da exploração de imigrantes desacompanhados de progenitores. Como se não bastasse vários estados estão a aumentar as horas permitidas de trabalho para trabalhadores jovens e alguns a aumentar o número de áreas em que podem contratá-los. Estas mudanças são feitas através da reversão de regulamentação sobre o trabalho infantil.

[3] Sunak, PM do Reino Unido, apresentou nova legislação sobre imigração para combatê-la. Fê-lo com o slogan «Stop the boats» («Parem os barcos»), numa clara ilustração da dura política que pretendem aplicar. Que se note que o Governo está disposto a sair da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, como forma de lhe dar seguimento.

[4] Em França temos um presidente que prefere aumentar a idade de reforma em dois anos, ao invés de aumentar impostos em grandes fortunas – não fosse ele um ex-banqueiro.

[5] No Brasil, no Dia da Mulher, um deputado decidiu divulgar informação falsa no púlpito e adotar um discurso antifeminista e transfóbico. De peruca em punho, Nikolas Ferreira vai ao Congresso dos Deputados afirmar o papel da mulher como mera máquina de reprodução. O país tem assistido ao surgimento, tal como nos Estados Unidos, de leis contra pessoas LGBT+.

[6] Por cá, temos o Chega a avançar uma revisão constitucional que permita a prisão perpétua e a castração química.

Podíamos falar de muita coisa, mas penso que o ponto essencial a questionar será: qual é o papel do Estado? Vejo-o como o escudo sobre toda e qualquer forma de exploração, o garante de liberdade individual. Cabe ao Estado organizar o trabalho de tal forma que permita uma justa redistribuição da riqueza. Para a semana regresso a este raciocínio.

[1] https://freedomhouse.org/explore-the-map?type=fiw&year=2023

[2] https://www.theguardian.com/us-news/2023/feb/11/us-child-labor-laws-violations

[3] https://www.publico.pt/2023/02/05/mundo/noticia/reino-unido-admite-deixar-convencao-europeia-direitos-humanos-2037698

[4] https://www.theguardian.com/world/2023/mar/24/why-macrons-pension-reforms-have-stoked-so-much-anger-in-france-protests

[5] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2023/03/brasil-tem-um-novo-projeto-de-lei-antitrans-por-dia-e-efeito-nikolas-preocupa.shtml

[6] https://www.dn.pt/politica/constituicao-o-que-querem-mudar-os-partidos-em-dez-areas-15586298.html