Mais do que ver, observar

Todos já ouvimos o ditado: nem tudo o que parece, é. Não é por se esculpir uma maçã em forma de gato, que se está diante de um gato. Não é por termos alguém a sorrir atrás de um balcão, que temos um trabalhador feliz.

Nós somos seres sociais e de hábitos. Orientamo-nos por uma rede que conhecemos bem e num quotidiano bem definido. Como temos um objetivo muito bem definido desde nascença, a estabilidade, preocupamo-nos com tudo o que possa afetar isso e acabamos por olhar de uma forma leviana para o que realmente nos rodeia.

Paremos, olhemos e questionemos:

Como valoramos o que nos rodeia? Conseguimos colocar números nas coisas? O sistema em que vivemos diz-nos que quase tudo se pode converter em números seguidos de euros, libras, dólares, etc. Tendemos a considerar que quanto mais dinheiro damos por algo, melhor servidos estamos e, como tal, vivemos com o objetivo de obter estabilidade financeira na esperança de levar uma vida desafogada. Aqui, desde logo, temos duas questões a explorar: as coisas e o trabalho.

Vejamos a primeira perspetiva. Valerá a pena o esforço de tentar obter os bens de maior valor? Será isso uma marca de sucesso? (O sucesso é, tal como o idealizamos, algo assim tão importante?) Não serão os objetos mais caros uma tentativa frustrada de nos sentirmos especiais, uma vez que possuímos algo menos comum? O dinheiro é, portanto, uma forma de quantizarmos a nossa singularidade?

Isto leva-nos à segunda questão, a do trabalho. A nossa singularidade aumenta quanto mais dinheiro temos (se às questões anteriores respondermos afirmativamente). Logo, podemos concluir que se é através do trabalho que recebemos dinheiro, quanto maior for o salário, mais relevante será o trabalho. Isto é verdade? Comparemos então um banqueiro com um indivíduo que recolhe o lixo. Como, nitidamente, o banqueiro ganha mais, pela nossa lógica, é evidente que é mais importante que o funcionário do lixo. Vamos ao «story time» de hoje:

Em 1968 quem recolhia o lixo na cidade de Nova Iorque decidiu entrar em greve. Em 1970, na Irlanda, os banqueiros decidiram fazer greve. A primeira greve levou a um estado de emergência na cidade e acabou ao fim de nove dias (de forma bem-sucedida para os funcionários). A segunda greve durou seis meses e ainda assim o crescimento da economia manteve-se estável. As pessoas com menor salário foram as que provaram a sua importância.

Vivemos num sistema que privilegia empregos que se resumem a transferir riqueza em vez de a criar. Quantos gestores financeiros e corretores de ações precisamos? Quantas mentes brilhantes são empurradas para trabalhos com menor relevância comunitária só porque podem ter maior benefício económico? Existem muitas pessoas que consideram o seu trabalho dispensável e isto tem de motivar preocupação. Não estaremos nós a desperdiçar recursos humanos que poderiam ser melhor distribuídos e serem mais úteis? Estou convencido que sim, mas para fazermos isso temos de abolir este sistema do lucro em que vivemos.

Pretendemos viver num mundo onde desprezamos os trabalhadores essenciais e romantizamos os acumuladores de riqueza? Queremos mesmo ser escravos de cifrões e abdicar de aproveitarmos a nossa vida? Este é um problema político.

Que se desengane o leitor: eu não tenho todas as respostas. O que precisamos é de reflexão. O nosso futuro político depende disto. O nosso sistema tem de ser melhorado: mãos à obra.