No próximo dia 11 de dezembro, esta quinta-feira, haverá uma greve geral. Trata-se de uma reação ao pacote laboral proposto pelo governo. São muitas as reações que se têm em relação a este assunto. Permitam-me trazer aqui alguns factos que a caraterizam.
Desde logo, parece-me importante notar como Portugal é dos países europeus onde menos se faz greve – e onde mais tempo se trabalha. A contestação não é habitual quando olhamos para o que acontece noutros sítios e esta greve é ainda marca por ser somente a quinta greve geral convocada simultaneamente pelas duas grandes centrais sindicais – CGTP e UGT. Na verdade, desde o 25 de abril só houve 10 greves gerais. A última já foi há 12 anos, mas talvez nos soe recente, afinal, a austeridade levou a 5 greves gerais entre 2010 e 2013.
Mais: mesmo quem nunca convocou uma greve geral, fê-lo. Perante o reconhecimento da impossibilidade de diálogo imposta pelo ministério, a União dos Sindicatos Independentes aderiu. E a cereja: os Trabalhadores Social Democratas também aderiram. Estamos, portanto, a falar da estrutura sindical associada ao Partido Social Democrata – que, relembre-se, lidera o governo que quer importa esta reforma laboral.
Esta não é uma greve que possa ser subestimada, quem lida com as questões laborais está preocupado. O próprio governo dá sinais de desespero perante a forte contestação que se aproxima.
Por um lado, temos a ministra a adotar uma retórica demagoga, manipulativa, afirmando que “estamos todos um bocadinho cansados de greves por razões políticas”, algo que o primeiro-ministro prontamente adotou e até a comunicação institucional do governo assimilou. Dizer “partidário” já seria um golpe populista, mas “político” é pura demagogia, é cavalgar na desafeição da democracia e ajuda à sua ruína. Qualquer greve é um instrumento político, da mesma forma que reformas laborais o são. Aliás, a própria ministra reconheceu uma motivação política para a sua ação: “a lei que está em vigor é que tem algum desequilíbrio em favor dos trabalhadores”.
Por outro lado, e se não colar a retórica, o primeiro-ministro já veio atirar areia para os olhos: o objetivo da sua legislatura é aumentar o salário mínimo para 1100€, mas agora já fala em “1500 ou 1600 euros”. O que não falta neste governo são surpresas: uma reforma na ciência e o próprio pacote laboral na base desta greve que não faziam parte do programa eleitoral, por exemplo. Contudo, ao contrário da materialização desses desaires, o salário mínimo para 2026 só aumentará 50€, segundo o governo, para 920€. Não é esta outra estratégia de alguém desesperado?
Espanta-me que não tentem falar do custo da greve, das centenas de milhões que não serão produzidos se o país parar durante um dia. Não deixa de ser curioso imaginar que impacto teria uma greve de acionistas: o impacto da greve geral é a prova de que são os trabalhadores o centro da economia.
As greves são sempre mais que uma greve, são o reconhecimento de quem faz o país avançar. São a exigência de se valorizar quem trabalha, com condições de trabalho dignas e justas. Este pacote laboral estás nos seus antípodas: facilita despedimentos, incentivo a precariedade, ataca a parentalidade, retira rendimentos e mina o próprio direito à greve.
Esta quinta-feira o país tem de parar, sob pena de fecharmos os olhos e ser demasiado tarde. É certo que muita gente sente que tem estabilidade ou que está perto da reforma, mas que tenha empatia, nem que seja só pelos seus filhos, que viverão num país ainda pior para quem trabalha, onde um jovem nunca sabe se pode confiar no ordenado ao fim do mês para constituir família.