Mais tempo para viver

A discussão sobre o tempo de trabalho tem sido central ao longo da história do movimento dos trabalhadores.
Nas últimas décadas, tem sido difícil aos trabalhadores conquistar novos avanços na redução do tempo de trabalho, libertando mais tempo das suas vidas para a família, para o lazer, para a fruição da cultura e da natureza e para o simples descanso.

A luta pela universalização das 35 horas semanais de trabalho para todos os trabalhadores do setor privado não teve ainda sucesso. O Código do Trabalho ainda consagra as 40 horas semanais, pese embora vários acordos coletivos de trabalho reduzam esse número de horas em alguns setores de atividade. Mesmo na administração pública, as 35 horas sofreram, no início da última década, o ataque da direita (PSD/CDS) com o apoio da troika, que só uma maioria de esquerda reverteu em 2016.

Ao mesmo tempo, as últimas décadas têm sido de enorme evolução tecnológica que permite que se possa fazer mais, em menos tempo e com menos recurso ao trabalho. E o que ganham os trabalhadores com essa evolução?
A verdade é que a riqueza mundial continua a ser acumulada em cada vez menos mãos. Os 1% mais ricos do mundo possuem mais riqueza do que 95% da humanidade. O tempo é, por isso, parte da luta que é necessário fazer por uma sociedade mais justa onde haja tempo para viver.

A chamada semana de quatro dias surge como uma forma de redução do tempo de trabalho, mas também como forma de melhorar a organização das empresas. Não pode, todavia, significar qualquer perda de direitos ao nível do rendimento do trabalho nem significar um acréscimo do número de horas de trabalho diária.
A semana de quatro dias tem de ser uma oportunidade para colocar no centro do debate sobre o trabalho o tempo de trabalho e a redução do horário de trabalho.

Essa alteração exige mudanças nas empresas, na administração pública e no funcionamento da economia. Não sendo linear, não é, todavia, uma impossibilidade, como muitos querem fazer crer e como o comprovam empresas que implementaram esse tipo de organização do tempo de trabalho.

A criação de projetos piloto de adesão voluntária, como o Bloco propõe nos Açores, terá o efeito de demonstrar o realismo da semana de quatro dias e a levar a que mais trabalhadores o reivindiquem e a que mais setores económicos embarquem nesse avanço.